20 de mar. de 2011

Abaixo-assinado Libertação imediata dos 13 presos políticos, que protestavam contra a visita de Barack Obama ao Brasil.



Para:Sec. de Segurança; Sec. da Presidente da República; Sec. do Sérgio Cabral

Nós abaixo assinados protestamos contra a prisão de 13 ativistas que participavam de uma manifestação pacífica contra a visita de Barack Obama ao país. A existência de presos políticos é um claro atentado contra as liberdades democráticas no país. Exigimos a libertação imediata e a revogação de todas as acusações.

Lista dos presos:

Gilberto Silva - eletricista
Rafael Rossi - professor de estado, dirigente sindical do SEPE
Pâmela Rossi - professora do estado e casada
Thiago Loureiro - estudante de Direito da UFRJ, funcionário do Sindjustiça
Yuri Proença da Costa - carteiro dos Correios
Gualberto Tinoco - servidor do estado e dirigente sindical do SEPE
Gabriela Proença da Costa - estudante de Artes da UERJ
Gabriel de Melo Souza Paulo - estudante de Letras da UFRJ, DCE UFRJ
José Eduardo BRAUNSCHWEIGER - advogado
Andriev Martins Santos - estudante UFF
João Paulo - estudante Colégio Pedro II
Vagner Vasconcelos - Movimento MV Brasil
Maria de Lurdes Pereira da Silva - doméstica


Os signatários

a indaga faz ENQUETE , veja, vote!

a indaga-mvive tá com uma enquete na área, lá embaixo, leia e caso queira, deixe seu voto!!

19 de mar. de 2011

"O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama"

Entrevista Tariq Ali (FRAGMENTO tirado do site da revista "caros amigos "por celito regmendes):

"O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama"

Por Tatiana Merlino PARA SITE DA CAROS AMIGOS

Enganaram-se aqueles que acreditaram que Obama representaria uma mudança na política interna e externa da principal economia do mundo. “Muitas pessoas acreditaram em Obama e se esqueceram que ele levantou mais dinheiro de Wall Street do que Hillary Clinton e John McCain juntos. O banco Goldman Sachs e muitos outros deram-lhe milhões”, afirma Tariq Ali, escritor e historiador de origem paquistanesa e radicado na Inglaterra. Ali, que está entre um dos mais respeitados intelectuais de esquerda, lançou, recentemente, o livro The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad (A síndrome de Obama: capitulação em casa, guerra fora), ainda sem previsão para publicação em português. Na obra, Tariq Ali analisa os primeiros 18 meses do presidente, que define como um “político-máquina do Partido Democrata em Chicago”.

Nesta entrevista, o historiador também discute a relação dos Estados Unidos com o Paquistão, país que, segundo ele, está sendo usado pelos interesses estadunidenses na guerra do Afeganistão( OBS: NÃO COLOQUEI ESSA PARTE DA ENTREVISTA, CASO QUEIRAM, COLOCO-celito regmendes). “Muitos dos terroristas de hoje foram treinados nos Estados Unidos, onde aprenderam como atirar em helicópteros. Hoje é altamente irônico que eles estejam fazendo isso contra os Estados Unidos”.

Tariq Ali ainda analisa a crise financeira mundial de 2008, que, define como a mais séria crise do capitalismo desde 1929. Sobre o processo eleitoral brasileiro, Tariq Ali, bastante crítico ao governo Lula, disse que ficou feliz por José Serra ter sido derrotado nas urnas, mas quando viu a presidente eleita numa foto com Antonio Palocci (que será o ministro da Casa Civil de Dilma) pensou “ai, meu deus... Esse cara é o mais articulado defensor de políticas econômicas neoliberais e o país não precisa de pessoas como ele, mas sim de pessoas que pensem diferente”.

Caros Amigos - Queria começar por seu último livro: “A Síndrome de Obama: Capitulação em casa, Guerra fora”. O que aconteceu, por que Obama está rendido em casa, foi uma cilada?

Tariq Ali - Não, não é uma cilada. Basicamente é importante entender que Obama é, essencialmente, um político-máquina, da máquina do Partido Democrata em Chicago. Um dos piores do país. No meu livro sobre Obama eu o descrevo como a aparição mais inventiva que o império criou de si mesmo. O império americano precisava de Obama, desesperadamente. Muitas pessoas assumiram, automaticamente, que Obama seria melhor do que Bush. Não apenas nos Estados Unidos. No mundo inteiro. Eles tinham ilusões reais. Até pessoas de esquerda, até o lideres bolivarianos, como Hugo Chávez. Eles tinham verdadeira esperança, não ilusões. Lula realmente acreditou quando Obama disse “sim, intervenha em nosso nome com o Irã”. Não é que Lula foi como a imprensa disse: “ele foi ingênuo”. Não é uma questão de ingenuidade. Obama disse ao Lula e para o líder turco, “por favor, nos ajude com o Irã”, e eles o fizeram. Eles conseguiram que os iranianos concordassem com o plano, e então os americanos recuaram.

Muitas pessoas acreditaram em Obama e se esqueceram que ele levantou mais dinheiro de Wall Street do que Hillary Clinton e John McCain juntos. O Goldman Sachs e muitos outros deram-lhe milhões. Eles não iam tocar um música que Wall Street não gostasse. Isso era óbvio. As pessoas achavam que as reformas da saúde seriam reformas de verdade, que haveria serviço de saúde de verdade, como há na Europa. Eles subestimaram o lobby da indústria farmacêutica e das empresas de plano de saúde e asseguraram que as reformas estavam sob seu controle. Então, quando houve as pressões das corporações nos Estados Unidos, Obama capitulou. Fora do país, houve guerra, como usualmente. Mas, internamente, mesmo com promessas que não tem nada a ver com as corporações, como “iremos fechar Guantánamo”, não se fez nada.

Com o que se prometeu de “iremos acabar com tortura, rendições”, também nada. O chefe da CIA, Leon Panetta, foi questionado sobre as torturas, e nada ocorreu. Então, o desapontamento entre seus próprios apoiadores nos EUA é muito alto. Eu estava nos Estados Unidos durante a campanha de Obama, e não há dúvida que entre as idades de 18 e 26, uma quantidade enorme de jovens se mobilizaram por ele. Então, essas são as pessoas mais desapontadas com Obama nos EUA.

Caros Amigos - Quais são as consequências desse desapontamento?

Nas eleições de meio mandato, muitos dos apoiadores de Obama não votaram, eles ficaram em casa. Então, os republicamos ganharam a Câmara dos Representantes, com uma maioria enorme, e no Senado, teve uma pequena maioria para o Obama, mas eles perderam. E se continuar assim, é uma pergunta em aberto o que irá acontecer em 2012. Não que isso importe, pois o sistema é tão forte agora, que é necessário ser um presidente muito corajoso e confiante para mudar isso, mesmo que pouco.

2 de mar. de 2011

Por uma política agrícola municipal


Uibaí é um município agrário: nasceu, creceu e existe em função do trabalho na terra. Curiosamente, quando se fala em política municipal, se esquece disso. Agricultura: coisa nobre, dizem os políticos. Pronto. Nada mais.

A economia regional, embora tenha desenvolvido um poderoso setor de serviços, é essencialmente agrária.Isso deveria ser motivo para a existência de uma séria política agrícola. Das áreas da educação e da saúde pode-se dizer que as coisas não vão bem, mas que há uma tentativa de se fazer alguma coisa, ainda que haja erros e coisas do gênero, mas na agricultura a coisa não anda nada, absolutamente nada.

A Secretaria de Educação do município compra produtos das mãos de agricultores familiares para colocar na merenda escolar; a Secretaria de Obras e Infra-Estrutura faz uma estrada ligando o povoado da Quixabeira ao povoado do Caldeirão, bem assim, faz uma estrada na serra para escoar a produção dos trabalhadores das roças da serra e tenta reformar outras estradas. O beneficiamento do leite e a introdução do queijo na merenda escolar são iniciativas importantes. Dentro da Ação Social, ocorrem capacitações para beneficiamento de produtos locais e estímulo ao cooperativismo. Então, até agora, apenas estas três ações ligadas à agricultura podem ser apontadas, e na realidade nenhuma dessas ações pode ser atribuída à Secretaria de Agricultura ou à tentativa do poder público municipal de construir uma política pública de agricultura.

Infelizmente, a nossa querida Uibaí padece de política agrícola: não há política de assistência técnica rural, não há política de financiamento agrícola, nem de escoamento, comercialização e distribuição da produção, não há política de controle de preços e de segurança alimentar, nemnão há política de beneficiamento e agregação de valor à produção agrícola, nem política de fortalecimento da agricultura familiar e de revitalização dos recursos hídricos. Em agricultura, não há nada a nível municipal, senão a atuação desorganizada e sem planejamento da administração municipal. Ações isoladas, sem um norte. É preciso generalizar o que é interessante. política municipal de distribuição de sementes e manutenção da diversidade genética,

Muito se tem dito sobre a estrada da serra. Em especial, que foi uma ação do poder público em atenção à demanda histórica desse segmento de trabalhadores do município que, historicamente, sempre foi excluído. Motivação eleitoreira: obra feita às pressas na véspera da eleição para deputado, com o trabalho dos serranos e apoio da prefeitura. De fato, os trabalhadores e as trabalhadoras da serra merecem atenção e respeito. Portanto, merecem uma política pública agrícola que dê das necessidades de todos os trabalhadores e trabalhadoras rurais deste município. Mas o que se vê é uma obra solta e perdida, que busca preencher o vazio da falta de política agrícola.

É preciso defender que a Secretaria de Agricultura não seja um prêmio de consolação para um aliado que é visto como adversário interno no governo. É preciso defender que essas ações isoladas que beneficiam camponeses aqui e acolá estejam integrados num projeto de médio prazo que atenda a todo o município. É preciso que haja um corpo técnico municipal composto de servidores – técnicos agrícolas, zootécnicos, agrônomos, veterinários, etc. – para que o município possa oferecer assistência técnica. É preciso pesquisar as potencialidades econômicas da nossa região e as fragilidades do bioma catinga de modo a preservá-lo para que se possa extrair a subsistência durante o futuro. É preciso escolher um secretário de agricultura que tenha legitimidade junto aos trabalhadores rurais.

Defendemos:

ü Escolha democrática e coerente do secretário de agricultura;

ü Concurso para corpo de assistência técnica agrária no município;

ü Generalização de ações interessantes como o beneficiamento da produção local e estímulo e capacitação para cooperativismo e associativismo;

Criação de um projeto agrário para o município com participação popular.

Dilma em Irecê: decepção e reflexão





A visita da presidenta da República Dilma Roussef em Irecê no dia primeiro de fevereiro foi decepcionante, estratégica e deve servir de reflexão sobre qual região queremos.

Decepção. Caravanas de vários municípios da região alugaram carros, vans, ônibus. Trabalhadores pegaram suas motos e veículos e se deslocaram para a capital da região para ver a mulher mais poderosa do mundo cara a cara. Alguns por admiração, outros por ligação política, outros porque queriam ver uma celebridade. A grande maioria teve que se contentar com um aceno rápido de mão e um sorriso. Além, é claro, do telão que foi instalado para que o “povão” assistisse. O local onde ocorreu o evento, o Granfest, é minúsculo para receber um presidente da república. A presidenta ficou lá dentro, com os “escolhidos”. Afinal, era preciso ser “credenciado” para entrar. Sinal dos tempos que virão: para o povo, o aceno de longe e um telão. Pessoalmente, só alguns, autoridades, dirigentes de movimentos sociais alinhados ao governo, políticos, empresários e algumas figuras que já foram povo há muito tempo.

Estratégica. Dilma escolheu Irecê para anunciar o reajuste do bolsa-família. Nas palavras da própria, 45 % de aumento para famílias com “grande número de filhos” – não definiu quantos – e algo menor para as demais. Ao todo, dois bilhões a mais de recursos para o programa. Dilma aprovou um aumento de salário mínimo ridículo dizendo que a despesa do Estado é muito onerosa. Porém, o bolsa-família, mistura de programa de renda mínima necessário em qualquer país civilizado com compra de votos oficial, esse injeta dinheiro na economia e faz o mercado se movimentar. O salário mínimo não! Dois pesos, duas medidas. Mas ela é esperta: afinal, aumentar salário mínimo não dá voto pra ninguém. E ela quer garantir seus votos para continuar dando esmolas aos pobres e garantindo grandes lucros aos ricos.

Segundo a presidenta, Irecê foi escolhida por que tem “muita bolsa-família”, mas “muito potencial em agricultura familiar”. Repetiu o lenga-lenga do ministro Afonso Florence, do governador Jacques Wagner e do prefeito Zé das Virgens. Baseado naquela lenda de que em Irecê existe uma “reforma agrária natural”. Ora, isso é um absurdo e só crê nisso quem não entende da realidade da região ou quem se beneficia com ela e pretende ocultar o conhecimento do concreto.

Uma “reforma agrária natural” é uma lenda que diz que na nossa região predomina a pequena propriedade baseada no trabalho familiar. Segundo a CAR, baseada em dados do IBGE, em 1995, as propriedades com mais de 10 hectares e com menos de 1.000 ocupavam 61 % das terras. Região destaque na produção de feijão, milho e mamona, era o maior produtor de grãos do Nordeste nos anos 1970, hoje exporta beterraba, cebola, banana, mamona, manga, pinha e possui destaque com uma pecuária de caprinos, ovinos, suínos e bovinos. Que orgulho: a pequena propriedade produzindo tanto.

Porém, analisando a economia agrícola dos anos 1910 dos Estados Unidos, o economista e líder russo Vladimir Lênin criticava a expressão “fundada no trabalho familiar”. A expressão “não possui qualquer sentido político-econômico, e induz indiretamente ao erro”. Afinal, o “trabalho familiar” existe em todos os tipos de economias, desde a moderna indústria de pequeno porte, passando pelo escravismo, feudalismo e comunitarismo primitivo. A expressão, porém, “contribui para confundir as mais diversas formas sociais da economia, beneficiando apenas a burguesia” por iludir “o público, levando-o a acreditar na não-existência de trabalho assalariado”.

Lênin também destaca que “a superfície está longe de indicar sempre e de uma forma direta a grandeza efetiva da exploração e seu caráter capitalista”. O tamanho da propriedade e a indicação de que existe uma região com “muito trabalho familiar” simplesmente por existir um grande número de pequenas propriedades é algo bastante relativo. O historiador baiano Erivaldo Neves destaca que no sertão do período colonial e imperial, propriedades com até 500 hectares podem ser consideradas pequenas, a depender da região e bastavam para assegurar a subsistência de uma família. Porém, com a conversão da agricultura camponesa em agricultura de mercado, a terra passa a representar apenas uma parte das condições de produção. Hoje, a região de Irecê possui uma poderosa pequena-burguesia composta por empresários rurais que investem grandes quantidades de capital – trabalho assalariado, máquinas, irrigação, adubos, pesticidas, assistência técnica, transporte – em unidades agrárias que não precisam necessariamente ser extensas. Muitos dos micro-proprietários necessitam vender sua força de trabalho como diaristas na própria região ou nos cafezais de Minas. Muitas vezes, para uma família camponesa conseguir sua subsistência do camponês é preciso somar o trabalho na roça, o serviço de alguns membros no serviço público local e de outros como assalariados em cidades distantes, uma aposentadoria e uma bolsa-família.

Dizer que existe uma “reforma agrária natural” – quando na verdade existe uma fragmentação fundiária e um grande número de empresas rurais intensivas – servem apenas para justificar a falta de uma política agrícola regional que beneficie os agricultores pobres, para não falar nos diaristas, nos meeiros e nos arrendatários, uma grande quantidade de trabalhadores rurais sem-terra. Pra quê microcrédito? Comercialização de produção eliminando atravessadores? Cooperativas de produção? Agroindústria? “Conversa de comunista”, diz o prefeito, o governado e a presidenta, “já foi feita a “reforma agrária de forma natural”.

Irecê sempre foi um lugar estratégico. Desde o século XVIII, a região possuía uma estrada que transportava gado do São Francisco, do Oeste, do Piauí e até mesmo de Goiás para Feira de Santana e Salvador. Durante a segunda metade do século XIX, abasteceu com farinha de mandioca, rapadura e outros produtos o lucrativo negócio de diamantes da Chapada Velha e, posteriormente, da Chapada Diamantina. No início do século XX, passou a exportar borracha (1904-1914), algodão e banha de porco (1920-1940), mamona e feijão (1948-1980), milho. Nela tentou-se instalar um foco de guerrilhas da esquerda armada no início dos anos 1970 pela Vanguarda Popular Revolucionária do capitão Carlos Lamarca. A partir daí, passou a receber grandes investimentos oriundos dos Estados Unidos – que serviam para infra-estrutura em estradas, energia elétrica, e, é claro, comprar tratores das multinacionais que destruíram a caatinga da região. Uma política de crédito agrícola para acalmar as populações potencialmente rebeldes e desassistidas pelo poder público criavam um setor agro-comercial poderoso na região que se associa a burocratas corruptos e mantém uma elite política regional com padrão de vida de país desenvolvido, enquanto a maioria da população vive na pobreza.

Alternativa? Somente a organização popular dos camponeses da região, junto aos trabalhadores urbanos, poderá realmente melhorar a vida do povo trabalhador. “De cima, só precisa esperar cacete”, conforme já diz Chico do Caldeirão. Serve para nós aquilo que Eduardo Galeano, escritor uruguaio disse sobre a América Latina: “Somos mendigos sentados sobre montanhas de ouro”. Até quando?

27 de fev. de 2011

PRESTANDO CONTA E LIGADO NA LUTA!!





O SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS DE UIBAÍ através de sua diretoria esteve nesse sábado na câmara de vereadores prestando conta do ano de 2010, se posicionou acerca de vários temas pertinentes á categoria, conclamou aos recém efetivados funcionários da prefeitura a se filiarem para q com isso a categoria seja fortalecida, se solidarizou aos profissionais da área de saúde q falaram da triste situação em relação a salários e condiçoes de trabalho entre outros problemas do setor, estimulou os sindicalizados a pensarem na eleição da diretoria em maio, alertando para a questão da renovação da mesma mas com a permanencia da luta, enfim, fez tudo aquilo q um sindicato pode e deve fazer qdo não é pelego e molenga...

20 de fev. de 2011

Olho d'água: onde nossa história começou














Fotos: Apresentação do Grupo de Teatro de Boca d'água em Quixabeira durante a Feira de Saúde (organizada pel Ceu de Fêra) e fotos dos arcos de Valdemar Araujo.



“Declaro que sou possuidor de um sítio denominado Olho d’água que comprei ao Coronel Ernesto Augusto da Rocha Medrado por UM CONTO E 200 mil réis o qual sítio possui duas léguas de largura, extremando pela parte do nascente no lugar Alto Grande confrontando com o Caldeirão da Gameleira, para o poente no desaguamento [Serra Azul, grifo meu] para o sul no Alto da Crus [não confundir com o atual povoado] e para o norte no Riacho do Meio.

Olho d’água 17 de abril de 1858. À rogo de Gonçalo José dos Santos. Padre Antonio Joaquim d’Abreu” (Registros Paroquiais de Terra. Xique-Xique. Fonte: Arquivo Público da Bahia)

Gonçalo José dos Santos aproveitou a vinda do padre e assim fez a declaração de sua propriedade. Infelizmente, não diz a data de sua compra, mas sabe-se que ocorreu na década de 1840, entre 1844-47 (Canabrava-Uibaí foi comprada ao mesmo Ernesto em 26/03/1847).

Com isso, Gonçalo não precisou de “procurador” nem de se deslocar até Xique-Xique e ali à frente do padre (responsável pelo recadastramento de terras) e assim ficar “quites” com as autoridades que vinham exigindo de quem tivesse terras “legais” que as declarassem sob pena de ficarem devolutas e assim arrumar problemas naquele momento e no futuro.

Gonçalo José dos Santos ao adquirir o sítio Olho d’água se torna o primeiro morador fixo da borda norte (lado de cá) na nossa querida Serra Azul. Ele que morava no Assuruá homenageou o lugar onde vivia, o Olho d’água de Joaquim dos Santos, depois Olho d’água do Cristal, hoje desabitado, num trecho do atual Gentio do Ouro, onde viviam índios tapuias mocoazes. Gonçalo era descendente deles pelo lado da mãe (filha de uma tapuia), já seu pai, tudo indica que fosse um ex-garimpeiro branco ou mestiço que se deu bem ao aventurar pelo Assuruá no início do século XIX quando vários garimpos de ouro explodiram na linda serra de nome tupi (ASSU = grande e RUÁ = serra).

O próprio Gonçalo, nas décadas de 1830 e 1840 ainda jovem (penso que ele nasceu entre 1820 e 1824) parece ter tirado a sorte grande na aurífera serrona. O cabôco teve como esposa a “mestiça” Raimunda Pereira Rosa, filha de um senhor chamado Faustino Rosa e de uma senhora, tudo indica, irmã de Venceslau Machado, fundador de Canabrava-Uibaí.

Naquele tempo, achar ouro era sinônimo de virar “fazendeiro” ou coisa parecida. O cabôco dos Santos, como muitos assuruaenses, não teve dúvidas, comprou caro, pois um conto e 200 mil réis equivalia a 120 cabeças de gado, de 12 a 15 burros cargueiros, o “trem” de maior valor na época depois de terra e gente escravizada, alguns quilos de ouro, dois a três escravizados jovens. Riacho d’Areia em 1854 custou menos da metade e mesmo assim se fosse hoje dava para comprar uma “railux” zero. Comprou também um bom pedaço de terra que misturava serra úmida (até hoje) com caatinga (área totalmente desvalorizada no período) e do seu arenoso-pedregoso Olho d’água do Assuruá veio com a família para o novo Olho d’água, na então “virgem” e promissora Serra Azul.

Além da mulher e talvez, um ou dois filhos, gado bovino, caprino e cavalar, é possível que tenha trazido um ou dois seres humanos escravizados. Era padrão na época: garimpar, bamburrar (achar “metal” e diamante), comprar gado e escravos, porém não ficou para a história nada que demonstrasse ou sugerisse que o cabôco cujos antepassados tapuias foram escravizados e praticamente dizimados pelos “brancos” e a “mestiça” Raimunda (provável neta de negra escravizada) tenham tido tais posses. No entanto, um filho deles, Tomás se casou com um moça cafuza chamada Manoela. Essa, tenho praticamente certeza que era a “cabrinha” (como consta nos documentos) Manoela, filha de Maria, uma africana que “pertencia” a Venceslau e, ao que parece, um filho dele.

Manoela nasce “escrava”, porém já adolescente foi viver com o marido no Olho d´água (Clarisse de João Brejeiro, sua bisneta, que a conheceu, a descreveu como “morenona”, grossona, bruta e de personalidade forte). Três filhos desses cafuzos-lusados (sangue luso, tapuia e africano) Bertolino Cabôco, Eugênio e Honório fundaram o povoado de Água Clara (de Presidente Dutra), os outros (foram mais de dez) deixaram muitos descendentes que antigamente eram conhecidos como os Cabôco da Água Clara e Cabôco do Olho d’água. Curioso é que o casal Gonçalo e Raimunda só tiveram filhos homens (Nicolau, Tomás, Manoel, Pedro, José, João e talvez Francisco) e com isso o sobrenome Alves Santos ainda é disseminado em Uibaí e P. Dutra.

Olho d’água/Boca d’água hoje é o maior povoado de Uibaí (cerca de mil habitantes), lugar bonito, atraente, com invejáveis recursos naturais. Está mais do que na hora de se pensar (sobretudo seu povo) em dar um novo salto e tornar-se vila-distrito. Que tal Vila Gonçalo?

Celito Regmendes. 11 de janeiro de 2011.


Publicado em "A Indaga", número 05, ano III