20 de fev de 2011

Como cães e gatos


A
política de Uibaí já foi de cobras e lagartos. Farpas, brigas de rua, tiroteios, fogos de artifício em cima das casas de adversários, polícia, fórum e juiz. Tudo isso parece que ficou para trás. Não se sabe até quando, mas agora a política de Uibaí é de cães e gatos. Cães fiéis, adestrados, com uma língua de fora, sem dentes. Gatos ladinos, espertos, sorrateiros, traiçoeiros, mas sutis.
A eleição da Câmara foi isso. Os partidários mais próximos a Pedro Rocha batizam a eleição de Davi para a presidência como traição. O nome mais bonito que Dóris, por ser presidente do PT e ter se coligado com Marcão e Edson Filho para derrotar a candidatura de Tarcísio para presidente da casa, foi Judas Iscariotes. Mas como nessa história não tem nenhum Jesus e tem muitas moedas de prata, resta perguntar: por quê o racha interno no governo?
Obra de Birinha? O mesmo poderia ter soltado fogos e assumido a articulação da eleição. Afinal, seria dizer: disseram que eu acabei quando perdi o apoio de Hamilton e Armênia, pois olha aí, elegi o presidente da Câmara. Mas, ao contrário, seus partidários negam o envolvimento do mesmo na eleição. Quem mais diz que Birinha está envolvido são os seus recentes correligionários, Luís e Armênia, agora dois fiéis vereadores da base de Pedro. A eles, derrotados, desalojados da mesa diretora, interessa associar a atual presidência ao principal adversário do prefeito. Afinal, se Doris e Davi perderem espaço dentro da prefeitura, eles podem ocupar as vagas. Edson Filho, Dindo e Marcão se interessam em compor a mesa diretora por terem perdido espaço na gestão de Luís que monopolizou os recursos da Câmara e fez uma presidência autoritária, perseguindo servidores e até com os próprios vereadores da mesa. Esses três estariam interessados mais na derrota de Luís dentro da Câmara do que na vitória de Birinha fora dela.
E os Judas da história? Doris e Davi? Traíram Pedro Rocha e foram comprados por Birinha? Parece simples demais. Ninguém abandona o barco andando. Os dois primeiros anos de governo foram muito mais difíceis e muito mais propícios para um afastamento do PT. Logo agora, que o governo de Pedro está acertando, faz sentido sair? Para quê? Apoiar um grupo moribundo que agoniza na UTI? Afinal de contas, o atual prefeito tem ligação forte com 2 deputados federais, um ministro de Estado – Afonso Florence, de Morro do Chapéu, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (aquele que se elegeu com as casas populares) – dois deputados estaduais, um governador e uma presidente. E à oposição carlista, que resta? Ligações pessoais com o vice-governador, um deputado estadual e um federal, todos da base de apoio dos governos do PT.
Nos discursos, em tom de defensiva, Davi e Dóris falaram em autonomia da Câmara, elogiaram Tarcísio, elogiaram Luís – o mesmo que foi contra o projeto de lei de assistência estudantil em 2005, perseguiu servidores, mudou de bancada, um camaleão – e disseram que ajudaram o governo Pedro Rocha. Na rádio, Davi falou abertamente que Dindo, vereador da base aliada do governo do PT, propôs uma chapa e articulou a eleição. Ou seja, tivemos uma eleição em que duas chapas queriam mostrar qual era a mais governista.
Pedro Rocha ganha e perde. Ganha porque Davi e Dóris perceberam que ele está com a bola toda com o povão e que se afastar dele pode ser perigoso. Daí se colocarem a favor dele, mesmo sendo contra ele em algumas coisas. Mas o prefeito perde. Mostra que não conseguiu eleger a sua chapa para presidência, que não sabe articular bem sua base legislativa, que foi bom em enfraquecer seus adversários, mas é ruim em agradar seus apoiadores.
Davi e Dóris ganham e perdem. Ganham porque têm uma poderosa máquina na mão. Mas perdem por associarem, junto às bases governistas, seus nomes com os de Marcão e Edson Filho, vistos como fiéis escudeiros de Birinha. Ganham o apelido de traidores do prefeito. Eles, que são do mesmo grupo desde os anos 1980, viram o sonho de governo realizado se desmoronar e perderam cada vez mais espaço para Dorival, Luís e Hamilton, inimigos históricos.
Por questões internas da Câmara, Dindo, Edson e Marcão, para derrubar Luís, se aliaram contra ele. Por questões internas da prefeitura, Dóris e Davi quiseram mostrar independência frente ao autoritarismo e arrogância de Pedro Rocha e se queimaram em suas bases fazendo alianças com adversários de ontem, contra aliados de sempre. Por questões internas do partido, Dóris perde espaço no PT uibaiense e vai dever explicações ao partido estadual por que não votou numa chapa presidida pelo PT e sim numa do PDT. Por questões de sobrevida política, Armênia, Dorim, ops, Viviane e Luís se mostraram fiéis a Pedro Rocha e, se perderem espaço dentro da Câmara, vão querer compensar dentro da prefeitura. Por questões internas nas bases petistas, Tarcísio se fortalece, não mais por ser crítico, amigo da verdade, inimigo da corrupção e incorruptível, mas por ser fiel, leal, mesmo com a certeza da derrota.

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