18 de set de 2011

O significado do desfile cívico



Quando os desfiles cívicos do dia 22 foram criados em Uibaí? Não tenho a resposta exata, mas chutaria que foi nos idos dos anos 1960, talvez até mesmo na década de 1950. Eram tempos em que a região estava sendo tocada pelo progresso - uma ideologia trazida pela Estrada do feijão, mesclada com crédito agrícola, tri-consórcio de mamona-milho-feijão, tratores, poços artesianos, mais tarde agrotóxicos, assistência técnica, etc. Ficava pra trás a Canabrava dos heróis vaqueiros, criada sob o signo da policultura de subsistência com a pecuária, ficava pra trás o sertão quase medieval, das supertições camponesas milenaristas (que alguns chamam de catolicismo), dos padres e beatas, dos rezadores e contadores de causo. O alto-falante da Voz do Povo, o rádio de válvula, o futebol, as bicicletas eram o sinal do progresso que iria jogar para sempre o atraso no esquecimento. Eram tempos confiantes, e o campo - caatinga também pode ser traduzida por "campo branco" deixava de ser o lugar das aventuras épicas de heróis encourados contra bois valentes, a morada da caipora e do mistério e passava a ser um terreno a ser explorado, esquadrinhado, cercado, derrubado.
Certamente, a CNEC foi uma grande impulsionadora dos desfiles cívicos e, certamente, a ditadura civil-militar iniciada em 1964 deu um ar de solenidade ainda maior. As fotografias do período mostram moças morenas com cabelos comportados, uniformizadas quase militarmente, portando bandeiras e cartazes, jovens alinhados cheios de orgulho marchando ao som de bandas marciais (haviam? nunca as vi nas fotos dos anos 60 e 70, mas vi uma num vídeo de 1988). Mas para além do primeiro plano das fotografias que mostram uma sociedade em renovação, alinhada, disciplinada, arrumada, organizada metricamente, quase militarmente - uma Esparta, talvez desejassem o professor Tonico e a professora Cassimira, os dois grandes intelectuais tradicionais, aquele representando o pai do civismo e aquela a mãe do espírito, aquele o homem da autoridade e da hierarquia, essa, a mãe da obediência e do respeito cegos.
Porém, no fundo das fotografias preto e branco, atrás dos jovens belos e das moças bonitas, hoje quarentões e cincuentões, está uma turba meio disforme, meio escura, meio desalinhada, meio caótica. Parece uma sombra medieval contrastando com a Uibaí do século XX que orgulhosamente se mostrava no desfile.
Tradição e modernidade se mesclam no desfile. Os caboclos, os escravos, os vaqueiros, os coronéis, os caçadores, as costureiras em máquinas portáteis estão salvos. Mas parecem ser um passado que ainda se envergonhava há pouco tempo (como explicar os escravos pintados de pixe?). E ainda estavam marchando militarmente, organizados, alinhados. Mas ainda que envergonhados, os pelotões estavam cheios de orgulho: do que realizaram, daquilo que podiam realizar. Afinal, a massa caótica que assistia o desfile adorava ver seus jovens lá, arrumados, bonitos. Até poucos anos, eram uma ocasião especialíssima para fotografias. Os meninos mais rebeldes gostavam de ir de escravos, caçadores (o fascínio das armas!), vaqueiros (tradições que não morrem) e ciclistas. As meninas, estas lutavam para conquistar as posições mais almejadas pelo gênro, a representação das estações do ano e, a mais suprema aspiração de uma garota de 9, 10 anos: ser uma baliza. Pelotão que só era tão disputado quanto o supra-sumo do orgulho: participar da banda marcial! O que mais um jovem poderia desejar?
Desde 2009, sua revitalização pela Secretaria de Educação e diretoria de Cultura do atual governo, o desfile ganhou em popular e perdeu em formalidade. A participação dos caretêros da Chapadinha e dos quilombolas de Caldeirão-Lagoinha deu uma "melhorada" à parte no desfile que pareceu menos uma formalidade do tiro de guerra e mais uma fanfarra, uma festa, um carnaval.
Para encerrar, uma pequena homenagem aos rebeldes que impediram que o descaso da administração Birinha apagasse o desfile da história, pelo menos durante um ano. Em 2000, não haveria desfile. O 7 de setembro, outrora tão importante, quase tão significativo quanto o 22, não foi realizado. A banda marcial, em protesto contra o poder executivo, saiu às ruas e a multidão a apoio: precisavam de instrumentos, afinal, aquilo era mais do que uma banda. O Grêmio Estudantil Secundarista do Serra Azul assumiu o fardo de organizar o desfile e, com apoio de alguns professores, e principalmente do povo, colocou as mãos na obra. Ainda que sob perseguições do governo municipal, realizadas pelo então primeiro-ministro, Dorival, o desfile foi realizado com um grau de organização e criatividade que contrastaram com os anteriores. As faixas de protesto - apoiadas maciçamente pela população - que ganharam as ruas no dia foram memoráveis e fazem parte da história. No quintal ao lado do bar de Tonho Calçada, uma faixa com uma frase de Hilton Cem resumia o espírito da coisa "A cultura está abandonada, a educação não quer progredir, o que está acontecendo com a nossa Uibaí?".
Foi um exemplo, entre muitos, de que, a despeito de prefeitos e chefes, o povo quando se organiza, realiza.
E pra você: o que o desfile significa?

Flávio Dantas

3 comentários:

  1. pra incio de conversa, HA COISAS Q MARCAM, Q PARECEM ENTRAR EM NOSSO DNA, uma dessas coisas é tal O desfile cívico uibaiense de de 7 ou 22 de setembmro... dua datas fortes no mes sempre causo agonia por aqui em prefeitos, diretores de escola e cia... QDO A GENTE É CRIANÇA É sonho e magia, NA ADOLESCENCIA É UM MICO Q VALE PONTO nas notas escolares( hoje mais q nunca) ou a depender do q se representa é uma boa forma de exercitar o narcisismo, qdo adulto, se é tentado a OBSERVAR não tem jeito, gente é bicho social, gosta de zuada, zumbido e algazarra, até por q a "infancia volta como um filme" e se tiver um filho ali no meio ihhhhh haja cartão de memoria na maquina fotografica...

    PRA QUEM É DO TIME DOS "REBELDES" DE TENDENCIA ESQUERDISTA CLARO Q O DESFILE MAIS INTERESSANTE DA HISTÓRIA FOI O DE 2000 por tudo aquilo q foi posto no texto q naõ sei quem escreveu mas registrou com propriedade...
    outro desfile q achei bonito e até interessante foi o de 2009, foi alegre , colorido e trouxe novidades q estavam "escondidas" nos rincões da zona rural como os CARETAS DA CHAPADINHA e o REISADO DA GRAMA...

    PELO TENHO INFORMAÇÃO os defiles em uibaí tiveram inicio nos anos 60 qdo foi criado o COLEGIO CENEG depois CNEC, tais desfiles ganhara densidade ano após ano no 7 de setembro pois havia toda um estimulo e mesmo certa pressão dos GOVERNOS MILITARES de incutirem nos brasileiros aqela coisa da ordem, do saudosismo aos SIMBOLOS MAIORES DA PATRIA, claro os q tivessesm de acordo com a PENSAMENTO DOS MILICOS, por isso , sair de DOM PEDRO PRIMEIRO, TIRADENTES E DE DUQUE DE CAXIAS era algo extraordinário, ali se encarnava um "herói", se i a cavalo( animal até hoje mítico na nossa cultura), ia com roupas possantes q o proprio agraciado pagava pra fazer(um LASKADO DA PERIFERIA nunca foi dom pedro ou caxias) e de armas,ihhh, o máximo... ja mulherada disputava a unha e dentes a função DE PORTA BANDEIRA, a do brasil , era tudo, ou seja, os desfiles cumpriam um proposito bem definido pelos donoS do poder na epoca... na pratica simbolizava todoas contradições e sakanagens de nossa sociedade, lembro q qdo criancinha , a gente das escolas primarias ia la na RABADA, levando gozação dos q tavam de fora( menos dos parentes mais proximo q pareciam extasiados, vó jovita mesmo, babava), sendo a todo momento chamado a atençao pelas professoras q penavam com os mais levados com "yo"...

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  2. este ano fui convidado a ASSESSORAR o desfile no q diz respeito a parte histórica, topei, a tarefa ta sendo ardua porém prazerosa, alem do mais, com ela vou ganhar um dinheiro com o qual farei reforma num pedaço da minha qerida casa,
    Na primeira reunião, sugeri varias coisas, entre elas a contratação de uma equipe de artistas pra ajudar em um serie de coisas( tchusco, claudio de lau, gorda, professora terezinha paulista e pita paiva entraram no rol), sugeri tambme q as bandas marciais evitassem as marchas militares, expliquei o motivo,ou seja, não estamos mais no periodo militar e o desfile deveria passar de algo q simbolizasse a reverencia, a "ordem" e respeito aos poderosos e passasse a ter uma caracteristica de celebração da CULTURA POPULAR não esquecendo porém q o mote principal é o CINQUENTENÁRIO, portanto a bandas deveriam priorizar musicas populares, frevos, enfim, ritmos sugestivos a celebraçao popular, foi argumentado q devido ao tempo e outros fatores seria impossivel abolir as marchas militares, então sugeri q pelo menos se eliminasse a obrigação de MARCHAR, de fila e tal, foi acatado p, mas percebi varios professores , um ou outro diretor torcendo a cara, para esses, tinha de ser como antigamente, quase a chicote kkkk mas a maioria agradou e ficou de se buscar ao maximo CRIAR performances, caso não desse, se deixasse as pessoas a vontade até para marchar se quisesse, na sua ALA( e não pelotão, kkk)...

    FICOU CERTO ENTÃO DE SE FAZER UM DESFILE COM CONTEUDO HISTÓRICO ( DA FORMAÇÃO A EMANCIPAÇAÕ) com bastante preocupação com o conteudo, o desafio é grande, pois tempo e grana( ou falta dos dois) são duas variáveis brabas, mas o desfile terá lugar tambme pras "coisas" de hoje, todas entidadades e grupos diversos foram convidados, assim como é pra ter uma ALA com algo voltado pros DESAFIOS de uibaí de agora e do futuro, as escolas do interior do municipio tiveram bastante ideias, estão bolando algo q penso q fikará bem interessante...

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  3. O desfile de 2000 foi realmente um dos mais marcantes pelo momento histórico em q Uibaí estava vivendo, com uma secretaria de educação e cultura q não dava importância nenhuma ao município. Este ano será diferente, parece q será interessante, mesmo assim chocará algumas pessoas (como tudo q é novo) q, no ensaio, já chamaram de desorganidos pela falta da fila e marcha. mas acredito q será um belo festejo da cultura populara como disse Celito.

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