20 de fev de 2011

Olho d'água: onde nossa história começou














Fotos: Apresentação do Grupo de Teatro de Boca d'água em Quixabeira durante a Feira de Saúde (organizada pel Ceu de Fêra) e fotos dos arcos de Valdemar Araujo.



“Declaro que sou possuidor de um sítio denominado Olho d’água que comprei ao Coronel Ernesto Augusto da Rocha Medrado por UM CONTO E 200 mil réis o qual sítio possui duas léguas de largura, extremando pela parte do nascente no lugar Alto Grande confrontando com o Caldeirão da Gameleira, para o poente no desaguamento [Serra Azul, grifo meu] para o sul no Alto da Crus [não confundir com o atual povoado] e para o norte no Riacho do Meio.

Olho d’água 17 de abril de 1858. À rogo de Gonçalo José dos Santos. Padre Antonio Joaquim d’Abreu” (Registros Paroquiais de Terra. Xique-Xique. Fonte: Arquivo Público da Bahia)

Gonçalo José dos Santos aproveitou a vinda do padre e assim fez a declaração de sua propriedade. Infelizmente, não diz a data de sua compra, mas sabe-se que ocorreu na década de 1840, entre 1844-47 (Canabrava-Uibaí foi comprada ao mesmo Ernesto em 26/03/1847).

Com isso, Gonçalo não precisou de “procurador” nem de se deslocar até Xique-Xique e ali à frente do padre (responsável pelo recadastramento de terras) e assim ficar “quites” com as autoridades que vinham exigindo de quem tivesse terras “legais” que as declarassem sob pena de ficarem devolutas e assim arrumar problemas naquele momento e no futuro.

Gonçalo José dos Santos ao adquirir o sítio Olho d’água se torna o primeiro morador fixo da borda norte (lado de cá) na nossa querida Serra Azul. Ele que morava no Assuruá homenageou o lugar onde vivia, o Olho d’água de Joaquim dos Santos, depois Olho d’água do Cristal, hoje desabitado, num trecho do atual Gentio do Ouro, onde viviam índios tapuias mocoazes. Gonçalo era descendente deles pelo lado da mãe (filha de uma tapuia), já seu pai, tudo indica que fosse um ex-garimpeiro branco ou mestiço que se deu bem ao aventurar pelo Assuruá no início do século XIX quando vários garimpos de ouro explodiram na linda serra de nome tupi (ASSU = grande e RUÁ = serra).

O próprio Gonçalo, nas décadas de 1830 e 1840 ainda jovem (penso que ele nasceu entre 1820 e 1824) parece ter tirado a sorte grande na aurífera serrona. O cabôco teve como esposa a “mestiça” Raimunda Pereira Rosa, filha de um senhor chamado Faustino Rosa e de uma senhora, tudo indica, irmã de Venceslau Machado, fundador de Canabrava-Uibaí.

Naquele tempo, achar ouro era sinônimo de virar “fazendeiro” ou coisa parecida. O cabôco dos Santos, como muitos assuruaenses, não teve dúvidas, comprou caro, pois um conto e 200 mil réis equivalia a 120 cabeças de gado, de 12 a 15 burros cargueiros, o “trem” de maior valor na época depois de terra e gente escravizada, alguns quilos de ouro, dois a três escravizados jovens. Riacho d’Areia em 1854 custou menos da metade e mesmo assim se fosse hoje dava para comprar uma “railux” zero. Comprou também um bom pedaço de terra que misturava serra úmida (até hoje) com caatinga (área totalmente desvalorizada no período) e do seu arenoso-pedregoso Olho d’água do Assuruá veio com a família para o novo Olho d’água, na então “virgem” e promissora Serra Azul.

Além da mulher e talvez, um ou dois filhos, gado bovino, caprino e cavalar, é possível que tenha trazido um ou dois seres humanos escravizados. Era padrão na época: garimpar, bamburrar (achar “metal” e diamante), comprar gado e escravos, porém não ficou para a história nada que demonstrasse ou sugerisse que o cabôco cujos antepassados tapuias foram escravizados e praticamente dizimados pelos “brancos” e a “mestiça” Raimunda (provável neta de negra escravizada) tenham tido tais posses. No entanto, um filho deles, Tomás se casou com um moça cafuza chamada Manoela. Essa, tenho praticamente certeza que era a “cabrinha” (como consta nos documentos) Manoela, filha de Maria, uma africana que “pertencia” a Venceslau e, ao que parece, um filho dele.

Manoela nasce “escrava”, porém já adolescente foi viver com o marido no Olho d´água (Clarisse de João Brejeiro, sua bisneta, que a conheceu, a descreveu como “morenona”, grossona, bruta e de personalidade forte). Três filhos desses cafuzos-lusados (sangue luso, tapuia e africano) Bertolino Cabôco, Eugênio e Honório fundaram o povoado de Água Clara (de Presidente Dutra), os outros (foram mais de dez) deixaram muitos descendentes que antigamente eram conhecidos como os Cabôco da Água Clara e Cabôco do Olho d’água. Curioso é que o casal Gonçalo e Raimunda só tiveram filhos homens (Nicolau, Tomás, Manoel, Pedro, José, João e talvez Francisco) e com isso o sobrenome Alves Santos ainda é disseminado em Uibaí e P. Dutra.

Olho d’água/Boca d’água hoje é o maior povoado de Uibaí (cerca de mil habitantes), lugar bonito, atraente, com invejáveis recursos naturais. Está mais do que na hora de se pensar (sobretudo seu povo) em dar um novo salto e tornar-se vila-distrito. Que tal Vila Gonçalo?

Celito Regmendes. 11 de janeiro de 2011.


Publicado em "A Indaga", número 05, ano III

4 comentários:

  1. VILA DO GONÇALO!!!
    legal,reforça nossas origens.
    afinal olhos d´agua do gonçalo antecedeu cana brava do gonçalo,e foi,nas meninas daquele zói dagua,naquele taco de chão,que se travou a guerra da maniçoba.
    ...mano tõ precisando reler canabrava do gonçalo,pois pelo andar da carroagem vcs que se preocupam em resgatar nossas raizes dando novo rumo ao futuro,com certeza irão produzir(ja estão) um novo trabalho,completando os que ja existem.
    e nós leitores e interessados no assunto estamos torcendo por mais saber.

    sim,também vou querer conhecer estes arcos.me diga ai onde estão localizaas tais reliquias pois na minha proxima ida em casa,vou da uma bizorada e curtir um pouco de história.

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  2. oi
    os arcos ficam na Boca d'água, depois do Bilú, acho que perto do Alto... ainda é meio confuso pra mim entender as divisões das ruas de Boca d'água/Olho d'água. O pessoal lá é muito receptivo aos curiosos.
    Valeu

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  3. ola cangaço os arcos do AQUEDUTO DE VALDEMAR BASTOS fica na BOCA DAGUA, pra quem vai daqui de uibaí entra-se na primeira ou nasegunda entrada antes da "praça da rodagem", fika cerca de 800 metros dessas entradas, perto de onde foi a "piscina de jò" ,perto tambem das casas de nozin e zezin, como flávio disse, o pessoal ali é bem receptivo, a obra é interessante, porém cabe uma NOTA TRISTE, a obra q é de 1973 a 1974 feita pra irrigar terras de valdemar, não serve mais aqueduto, ta entrando em ruínas , umm pedaço ja desabou!!!

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  4. que pena cara!!
    parece que ainda temos pouca atênção das autoridades nessa questão....más vamos chegar lá!!
    valeu rermendes!!vc pelo geito tem cortado um bocado de carreiros né...boa escolha!!!
    e valeu também grande falavius,com certeza vou dar uma conferida messa arte!!
    há eu tb ainda tenho uma boa camaradagem em boca d'agua.
    inté!!!!

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