9 de jul de 2010

Escravidão em Canabrava, racismo em Uibaí


A escravidão faz parte de nosso passado de uma forma tão cruel que ainda hoje não nos livramos dela. Não é possível entender nenhum problema social do país (pobreza, criminalidade, favelas, racismo, terrorismo de Estado) sem entender o quanto a escravidão ainda está presente como um fantasma que assombra.

Ao contrário do que deixa entender Osvaldo Alencar em seu livro Canabrava do Gonçalo[1], quando diz que a abolição não foi notada visto que “não havia escravos no lugarejo (Canabrava)” a escravidão estava presente na nossa terra. Osvaldo não diz que não houve escravidão, mas faz um silencio sobre a questão. Demonstraremos, através de informações colhidas no próprio livro que a escravidão está indissoluvelmente ligada ao nosso passado.

Alberto Pires de Carvalho, considerado um dos principais povoadores da região, fundador de Tiririca (hoje Itaguaçu) casou-se com uma menina “pegada a dente de cachorro”, a qual deram o nome cristão de Felícia, seqüestrada de sua aldeia indígena e “assimilada” na sociedade dos “brancos”. Em Uibaí, Venceslau Pereira Machado, fundador de Canabrava, era um mulato, ou seja, filho de português com uma ex-escrava chamada Maria Semente. Mariana, esposa de Raimundo Pereira da Rocha, fundadores de Riacho de Areia (hoje Hidrolândia) também era filha de uma “índia pegada no laço”, ou seja, de uma menina indígena capturada de sua família e aldeia e submetida a novos costumes e vidas, aos valores brancos. Tal forma de captura, algo bastante regular no Sertão, era um processo extremamente violento e sua legitimação partia de um costume da escravidão indígena.

A escravidão propriamente dita na Canabrava também houve. A compra da fazenda São Gabriel que deu origem ao município atual, se deu em 1886, e o neto de Venceslau, José Pereira da Rocha, pagou o valor da fazenda com um escravo chamado Domingos, de “qualidade” cabra, ou seja, mestiço.

Com informações que não estão no livro de Osvaldo, podemos completar o quadro. A começar, dizendo que, provavelmente, a primeira pessoa que nasceu na Canabrava foi uma escrava chamada Manoela, filha de uma africana chamada Maria. Como não havia homens adultos escravos no lugarejo, talvez Manoela fosse filha ou neta do “patriarca” (como o chamava Osvaldo) Venceslau, visto que sua mãe, provavelmente fosse Maria, uma africana, e que Manoela era “cabra”, ou seja, de pele nem tão escura para ser “preta” ou “crioula”, nem de pele tão clara para ser “mulata” como o próprio “patriarca” dos Machado. Quando Venceslau morreu em 1850, deixou 3 escravos de herança. As já citadas Maria e Manoela (com um ano de idade) e o menininho Antônio. Em Riacho d’Areia (Hidrolândia) algumas pessoas também eram propriedade de outras. Essas informações estão disponíveis em documentação no Arquivo Público do Estado da Bahia, na capital do Estado.

Ao contrário do que deixa a entender Osvaldo Alencar, que “não havia escravos no lugarejo”, havia escravos no que hoje é o município de Uibaí. Está em preparo uma dissertação de mestrado da professora e historiadora Taiane Dantas Martins sobre escravidão no município de Xique-Xique que trás bastante informações a respeito das relações escravistas no município no qual a vila de Uibaí se desenvolveu.

A escravidão sertaneja possuía algumas peculiaridades. A escravidão tendia a ser de pequena escala, mas houve fazendeiros que possuíam dezenas de homens e mulheres escravizados. Isso determina em muito a forma das relações de poder. O “patriarca” tem uma relação muito pessoal, muito íntima como o oprimido. Como prova o caso de Canabrava a intimidade era tão grande que até filhos eles tinham juntos. Essa proximidade determinada pelas relações de produção escamoteava as possibilidades de reconhecimento entre os oprimidos e favorecia as saídas individuais. As fugas são relativamente esparsas. Porém, isso não quer dizer que não havia resistência: os escravos buscavam através de negociações de ordem diversas a melhoria de suas condições de trabalho ou mesmo buscavam acumular algum tipo de poupança objetivando a compra individual da sua liberdade. Isso não quer dizer que não houve quilombos de fugitivos no sertão. O vale do rio Verde e o alto da Serra do Assuruá foram refúgios para homens e mulheres que queriam ser livres. Vicente Veloso, o ex-escravo que fugiu e acabou descobrindo o boqueirão da Canabrava, talvez tenha fugido de Morro do Chapéu ou Jacobina para algum quilombo e se perdido.

Não sabemos se há descendentes desses homens e mulheres que foram escravizados nas terras de nossa região. O fim do tráfico de escravos em 1850 drenou parte da mão-de-obra escravizada para o Sudeste, sobretudo para as lavouras de café. O preço de um escravo no vale do São Francisco tornou-se exorbitante o que estimulava a sua venda para o Rio de Janeiro. Não sabemos para onde foram parar. A escravidão era cruel. Quando Venceslau morreu, Maria foi vendida para que fosse possível fazer a divisão de bens entre os herdeiros. Talvez tenha sido o primeiro grande crime de Canabrava: a separação da mãe de sua filha recém-nascida. Mas sob os olhos frios do escravismo, não eram pessoas. Eram mercadorias, que diferiam de um animal ou de uma bruaca velha pelo alto preço no mercado que possuíam. A ideologia da escravidão impedia-os de ver que aquelas pessoas não tinham preço.

O que sabemos é que a ideologia da escravidão permanece. A discriminação contra os brasileiros que tem características físicas negras e indígenas, o preconceito contras as religiões africanas e indígenas são a nossa herança do passado de escravidão. A pobreza, a miséria, os péssimos índices de educação, a precarização das condições de trabalho das populações negras e indígenas não são obra do acaso, da falta de sorte ou da incompetência. 300 anos de escravidão, de exploração, de desumanização deixaram marcas que a abolição não foi capaz de apagar. O racismo é uma ideologia perversa que começa negando a si mesma: ninguém se assume racista, mas ele existe e continua provocando sofrimento. Uma das características de reação ao racismo é o auto-branqueamento: alisar os cabelos, tentar convencer aos outros e a si mesmo de uma brancura, de uma descendência européia. Afinal, como é que pode haver em Uibaí brancos se mesmo o fundador da localidade, um dono de escravos, o era?

Ninguém nasce racista. As pessoas aprendem isso na educação, na escola, no dia-a-dia, através de juízos de valor, julgamentos infundados, preconceito de classe, má-educação, piadas sem graça, ignorância. As pessoas aprendem a ser racistas. É um fenômeno histórico e não natural. Contudo, conforme Karl Marx “são justamente os homens que transformam as circunstâncias e (...) o próprio educador precisa ser educado”[2]. E a existência de uma educação racista implica na possibilidade de uma educação não-racista, de igualdade. Todavia, a igualdade racial é algo que se sustenta na luta por igualdade social.

Uma nova sociedade sem racismo além de ser uma possibilidade é uma necessidade!


[1] ROCHA, Osvaldo Alencar e MACHADO, Edimário Oliveira. Canabrava do Gonçalo. Brasília, Edição do autor, 1988.

[2] MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. In: MARX, K e ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo, Martin Claret, 2004.

Projeto popular: atualidade do debate


Nota: O texto abaixo foi um manifesto que circulou na internet e em forma impressa no município de Uibaí entre julho e agosto de 2008. Seus redatores objetivavam um número de algumas dezenas de assinaturas de cidadãos e cidadãs uibaienses e divulgá-lo de forma massiva convocando a população a debater um projeto popular. Vários uibaienses assinaram o mesmo e o divulgaram na internet e em Uibaí. A segunda parte do plano não ocorreu por diversos motivos e o mesmo caiu no esquecimento. Para retirá-lo dos arquivos e devolvê-lo a luz, apresenta-se a seguinte justificativa: as premissas do texto continuam atuais e a avaliação do mesmo é, ainda, pertinente. Quem sabe agora, além do manifesto, possamos partir para medidas organizativas concretas?


Trabalhadores, trabalhadoras e jovens uibaienses

Para que serve o voto? O que são as eleições? O que é democracia? Essas perguntas elementares devem motivar uma reflexão. Sempre textos sobre anos eleitorais tem início destacando a importância do voto, como se o mesmo fosse natural e absoluto: o voto é e para sempre será. Parece que andamos subindo uns degraus da escada da história e finalmente chegamos na cobertura. Nossos bisavós não votavam. Nossos avós, tão pouco. Nós sim e isso, por si só, é maravilhoso. Nós, sim, tivemos o privilégio de viver em uma democracia.

Mas como é que pode essa contradição? Chegamos ao máximo de democracia que pode existir, mas estamos longe, bem longe mesmo da justiça social. Será que somos um bando de burros e nunca usamos a democracia (que do grego, significa “governo do povo”) para tornar as coisas melhores para nós? Será que o problema está em nós? Ou na democracia, aliás, na falta de democracia?

Não, companheiros, não chegamos nem ao final da história, nem ao máximo da democracia na política. Podemos e devemos querer mais. Por que nos satisfazer com as migalhas que caem da mesa dos “home” se podemos conquistar o céu? Por que vamos esperar que alguém faça algo se nós mesmos podemos fazer acontecer? Por que vamos permanecer isolados, desorganizados e egoístas se podemos nos organizar, nos juntar, criar força, ter mais voz?

E por que vamos dar tanta importância às eleições, ao ato de votar, e tão pouca ao resto todo? Bem, se não é bom com o direito de votar, muito pior foi quando o mesmo não existia na história do Brasil. Mas a ditadura militar das armas foi substituída pela ditadura liberal do dinheiro. E o cidadão só serve para votar “de quatro em quatro anos para mudar de dono” como diz o Subcomandante Marcos, um rebelde mexicano. E ficamos, nos iludindo, ansiosos por chegar à eleição e sair debaixo de botas velhas para sermos esmagados por botas novas. Os senhores podem ser sorridentes, malvados, cruéis, católicos, sanguinários, bondosos, caridosos, com boas intenções... mas senhores são sempre senhores e escravos são sempre escravos! E para que ninguém mais seja escravo é preciso acabar com o senhor! Inclusive com o senhor escravizador que existe dentro da gente e nos diz que devemos nos acomodar, que devemos nos acovardar e tirar vantagens que na verdade são esmolas e crer ser um aliado, quando na verdade se é um puxa-saco.

O voto não garante democracia. Ele, por si só, funcionaria bem se todos tivessem emprego estável, onde morar, o que comer, onde estudar, onde se divertir, onde cuidar da saúde, onde cair morto, tempo pra pensar, para aí, depois de tudo, ter “consciência”. Como posso ter “consciência” política se não tenho independência econômica? Na prática, os votos funcionam como um meio de conseguir um emprego para o parente, uma forma de agradecer um favor prestado ou um jeito de arrumar uns trocados. Isso é porque deram a todos o direito de votar, mas não o direito de comer. Democracia entre ricos e pobres vira ditadura do dinheiro.

Não votamos porque temos um “ideal” ou uma “consciência” abstrata. Votamos porque temos interesses. As pessoas vendem ou não seus votos por causa dos interesses. Os candidatos se movem orientados por seus interesses. Mas quais?

Os ricos estão o tempo todo defendendo os interesses de sua classe e seus interesses pessoais. Os pobres que acreditam que podem defender seus interesses particulares estão enganados. Seus interesses individuais não tem valor nem força alguma! Sozinhos, divididos, os trabalhadores pobres sempre perdem quando estão contra os interesses dos ricos. Em qualquer situação, os trabalhadores sozinhos, desorganizados, sempre perdem. Entre uma disputa entre um pequeno produtor endividado e um banco credor, quem ganha? Em uma disputa entre um trabalhador macaqueiro e um fazendeiro, quem ganha? Em uma disputa entre um pequeno agricultor e um grande dono de armazém, quem ganha?

Os trabalhadores não ganham coisa alguma quando estão isolados, desorganizados. Os trabalhadores podem conseguir algo, só se estiverem organizados. Somente organizados podem defender seus interesses de classes. E os interesses da classe trabalhadora são sempre contrários e opostos aos interesses de seus adversários de classe, os capitalistas, sejam eles comerciais, bancários ou industriais.

Não temos, em Uibaí, nenhuma candidatura que defende os interesses da classe trabalhadora e da juventude. Cada qual está tentando ver quem vai ficar com a parte gorda do bolo. De um lado, temos a confirmação explícita de trinta anos de ilusão e desordem iniciados com Hamilton (1982-1988) que elegeu Renato (1988-1992) que foi afastado para o retorno de Hamilton (1992-1996) que apoiou Birinha (1996-2004), que elegeu Raul (2004-2008). Do outro lado, a Frente de Libertação e Reconstrução de Uibaí pouco ou quase nada restou das grandes campanhas de oposição de Osvaldo Alencar (1976), Bernadete Alves (1982), ambos pelo MDB ou de Tarcísio (1988 ou 1996). Temos, sim, o retorno do que havia de pior na política de Pedro Rocha e Domingão representados em Pedrinho e no filho de Dorival. Não podemos crer que tais chapas possam dar andamento ao projeto de poder que nossa terra precisa. E, depois da festa, no fim das contas, aos trabalhadores só serão ofertadas as migalhas da mesa: uma carrada de areia, uma nota de cem ou cinqüenta reais, uma grade de cerveja, ou um grande favor prestado em uma hora de precisão.

Porém, sabemos que a simples mudança de nome na eleição não vai mudar o essencial. Será a escolha entre mais praças ou menos praças, mais reformas em escolas e estradas ou menos, mais ou menos denuncias de corrupção, mais ou menos a mesma coisa. Nós precisamos é de algo diferente. Nosso município está, cada dia mais, tornando-se inviável para as novas gerações. Cada vez menos empregos, cada vez menos perspectivas, cada vez menos trabalho, cada dia que passa menos esperança de que é possível viver com dignidade na nossa terra. E vão os retirantes buscar vida melhor nas grandes cidades, morrendo de saudade de casa! Precisamos mudar nossa realidade, mudar as condições de produção, mudar a agricultura e pensar uma educação e uma saúde que não seja a imitação do que dizem que é bom, mas que seja adequada aos fins e às necessidades da comunidade.

Os políticos de nossa terra não serão capazes de fazer isso. Sua força está na pobreza do povo e eles trabalham para ameniza-la, mas também para mantê-la. Somente os próprios trabalhadores poderão fazer isso, através de sua organização. Somente eles poderão construir e efetivar um projeto de poder popular que leve em conta as necessidades de nossa região.

Por isso, não vamos pedir votos a ninguém para nada. Ao invés de decidir entre 6 ou meia dúzia, decida em defender seus interesses de classe.

Decida pela elaboração de uma Projeto de Poder Popular que vá além da eleição de diferentes botas para os mesmos pés.

NÃO QUERO 6, NEM MEIA DÚZIA!

QUERO UM PROJETO DE PODER POPULAR!

7 de jul de 2010

Deputado serve pra quê mesmo?

Há muito já começou. Eles chegam, rodeados de cabos eleitorais e amigos. Verificam suas obras, beijam crianças, tomam um cafezinho, distribuem simpatia, metem a mão na panela de galinha e tiram uma coxa para ouvir um "ô bicho retado" do dono da casa, lisonjeado pela humildade tamanha de um "homem tão importante" (ou mulher, que, infelizmente, não tem feito muita diferença). Pedem seu voto, dizem que fizeram mundos e fundos e que vão remover montanhas, trabalhando com fulaninho e ciclaninho. Mas no fundo, a gente sente que desde que o dito cujo subiu ao "poder", sua vida não mudou. E existe uma certeza de que seu voto não vai fazer muita diferença.
Resta perguntar: pra que serve mesmo esse negócio de deputado? Eles tem o direito de governar nossas vidas? E, como em parte já o fazem, eles tem competência para tal ou estão pouco se lixando para o que rola conosco e muito mais lhes interessa o que rola pra eles?
Outra coisa. Há novidades? Há candidaturas que vem das classes populares? O que elas propõem? Quando se reuniu gente em nossa região para discutir um programa de candidato, para decidir o que um deputado deve fazer? Ou será que as pessoas mais interessadas nas mudanças de sua vida não tem o direito nem a competência de, para não dizer decidir, pelo menos opinar sobre o que deve ou não ser prioridade, o que deve ou não ser feito?
Servimos só pra votar?

4 de jul de 2010

Eleições estaduais 2010: a política da sem vergonhice


A eleição estadual está chegando e estamos prestes a aguentar mais um espetáculo horrível. Enfrentam-se no palanque da propaganda milionária o novo cabeça branca da Bahia, Wagner (PT), com sua infantaria televisiva de desdentados, analfabetos funcionais e outros miseráveis que são expostos na televisão de forma sensacionalista como gado humano. Parece que nenhum deles tinha diginidade até o PT lhes dar. A farinha podre do mesmo saco se repete nas outras duas candidaturas. A única novidade é que a sem-vergonhice do PT ultrapassou os limites do bom-senso e não existe mais diferença alguma em relação a Paulo Souto e Gedel Lima.
Os grandes empresários e a esquerda sem ilusões já sabia, desde 2006, que não havia diferença entre Souto, Gedel e Wagner. Por isso, grandes empresas do ramo da indústria de celulose que expulsam indígenas e camponeses de suas terras, grandes empreiteiras de construção civil e outras já fizeram generosas doações idênticas às duas candidaturas viáveis de 2006. Do carlismo ao petismo, a Bahia não mudou. Continua com a economia em crescimento sem a melhoria proporcional dos direitos de saúde, estradas, educação e emprego da população. Aliás, o que mudou é que os antigos carlistas vestiram camisas vermelhas.
O governo do novo cabeça branca da Bahia foi um primor de fascismo que deixaria Mussolini "vermelho" de orgulho. Era o ditador italiano que dizia que policiais são mais importantes do que professores. Wagner humilhou os profissionais da educação como nunca havia se visto na história da Bahia. Não acatou as reivindicações da rede estadual, não convocou os aprovados no concurso público de Souto em número suficiente, não chamou concurso público, não chamou coordenadores pedagógicos em número suficiente, cortou os salários dos professores das universidades em greve, congelou o orçamento da UEFS em punição à greve de 2007 e lançou o plano de nivelar as universidades estaduais por baixo. Esculhamba com a educação e diz, na propaganda da TV, que "faz mais por quem mais precisa". Para Wagner, o baiano não precisa de educação, mas de ilusões televisivas e de polícia e violência.
Tem mais. Negou as casas aos trabalhadores sem-teto de Irecê desrespeitando a lei de Habitação Social e permitindo que seus comparsas da prefeitura dessa cidade deitassem e rolassem utilizando essas casas para conseguir votos para o candidato a deputado federal e ex-secretário de Urbanismo, Afonso Florence. Em Irecê, só faltou mesmo xingar o padre na missa do padroeiro.
O que se decidirá na eleição de 2010 será se a cabeça do governador continuará com cabelo branco ou será sem cabelo. Todavia, sabem os mais velhos que o que importa num homem não é o que está em cima da cabeça, mas dentro. E nisso, os candidatos são iguais. Todos representam um retrocesso humanitário. Todos utilizaram dinheiro a rodo e máquinas publicitárias para comprar e iludir o povo baiano.
Resta-nos dizer que nossa dignidade não tem preço. Resta-nos a resistência ao poderio da estupidez, da ilusão e das quadrilhas instaladas na burocracia governamental. A eles dizemos que existem homens e mulheres que eles não podem dobrar. A eles dizemos que existe gente que não tem preço. A eles dirigimos as palavras do poeta: "hoje estamos a perigo, hoje estamos separados, divididos. Mas um dia, um dia, nós seremos a maioria"

2 de jul de 2010

Pato x Rato: Rocha Machado ou Machado Levi ou A triste história da política em Uibaí





O primeiro prefeito local, que foi eleito em 1961, ao que os vestígios históricos indicam, possuía uma preocupação real com o povo e realizou importantes obras ligadas à educação e ao fornecimento de água e luz. Mas estamos falando de uma época em que a prefeitura não era “mina de ouro” e prefeito não era “chefe de gangue”.
Ao final de seu mandato, o primeiro prefeito entregou o poder de mãos beijadas em troca de um acordo e a partir daí foi intensificado o uso da prefeitura como fonte de enriquecimento ilícito de uma família e de seus aliados. Limitou-se a discussão política, com raros momentos de lucidez onde a verdadeira esquerda entrou em ação, numa disputa pelo poder protagonizada por essas duas famílias que já eram rivais antes de Uibaí ser município.
E é aí que o povo, que deveria ser o grande beneficiário do dinheiro público que é ele quem financia, passa a ser visto como uma horda de mendigos que se vendem às vésperas da
eleição e não merecem educação, trabalho, lazer ou atenção. A distribuição dos cargos administrativos em Uibaí segue o vergonhoso critério de parente do prefeito / partidário forte / cabo eleitoral e o item “competência” para realizar o trabalho sério em benefício do povo vai para o espaço de uma vez por todas. Com um grupo incompetente não é possível governar bem e é aí que a mudança fica com cara de coisa antiga e quem pensa se pergunta o porquê disso.
Em Uibaí, se você não é Machado, não é Levi, não mora no Centro da cidade, ou não é estudado, você não é visto como gente por grande parte dos que sempre detiveram o poder. Mas você sabe analisar, sabe perceber isso e deve pensar qual a melhor forma de mudar essa visão preconceituosa e infeliz que aqui reina há muitas décadas. Você trabalha, sofre, defende e ama essa cidade, mas é posto de lado como um penico que só é usado às vésperas das eleições. Parentes de líderes políticos que moram fora e não entendem nada sobre Uibaí é quem tem vez. E você, mesmo que tenha ideias interessantes, capacidade de trabalho e vontade de melhorar a cidade é posto de lado para dar boa vida a essas pessoas.
Isso porque você não estava se digladiando na campanha... Você não é cabo eleitoral... Você não é parente de quem tem um cargo.... Uibaiense... Trabalhador... Santos, Silva, Carvalho, de Jesus... Você está do lado de fora!

Cristianismo e Política



Este texto foi publicado no informativo do MVIVE, A Indaga, número 2, de dezembro de 2008.

s comemorações da Padroeira de Uibaí Nossa Senhora da Conceição levaram muita gente à Igreja Católica nos últimos dias: para quem ainda duvidava pastor mostra ter um rebanho ainda muito grande. O crescimento do protestantismo é elevado: enquanto o catolicismo só cresce em torno de uma instituição, o protestantismo cresce através de milhares de denominações pentecostais e neopentecostais. Mas existem diferenças entre catolicismo e protestantismo: os protestantes têm, de um modo geral, o pertencimento exclusivo ás práticas espirituais de sua Igreja. Os católicos, pelo contrário, tem uma conhecida “tolerância” em relação a outras práticas espirituais: católicos podem ser candoblecistas, umbandistas, espíritas-kadercistas. Acontece, todavia, que a Igreja Católica é detentora de uma hegemonia política e cultural.

Em nossa região a chegada do protestantismo foi conflituosa. Os primeiros evangélicos (protestantes e batistas) eram descendentes da família de Martinho Pires de Carvalho, fundador de Traíras. A partir daquele povoado houve uma expansão do protestantismo, desde o ano de 1907. Logo após, nos anos 1910, a disputa da liderança do povoado de Canabrava do Gonçalo (então, pertencente à Xique-Xique) se deu mediada por fatores religiosos: os dois candidatos a sub-intendente (que equivaleria hoje, mais ou menos, a sub-prefeito) eram Jóvito Pereira Machado e Bejamim Machado Miranda. O primeiro foi vitorioso e o principal argumento utilizado para “desmoralizar” Bejamim foi o fato de ele ser “protestante”. A vitória coube à Jove que não teve tempo para desfrutá-la.

Em um mundo quase completamente católico, ser protestante era um crime aos ouvidos de muita gente. Nos anos 1930-40, em Ipupiara, um pastor protestante quase foi queimado em uma fogueira em praça pública: a idéia foi do padre que estava no lugarejo. Bié, primeiro poeta uibaiense, dizia em seus versos “O Deus dos protestantes / é ministro estudado na Ponte Nova / que só crê no deus-dinheiro / mas na religião não dá as provas / por que a lei de Cristo é mais velha / e a de Lutero é mais nova”. Hoje, o preconceito contra protestantes é bastante reduzido se comparado com o existente contra religiões afro-brasileiras – o Candomblé e a Umbanda – que sofrem de uma “perseguição” velada que é, além de imoral e preconceituosa, ilegal.

Outro preconceito existente é entre cristianismo e esquerda. Muitos esquerdistas acreditam que todos os cristãos são conservadores e defensores do autoritarismo e muitos cristãos católicos e protestantes acreditam que todo revolucionário e esquerdista é ateu. É uma falsidade. Ao longo da história, o cristianismo foi utilizado tanto para a opressão quanto para a libertação. A Igreja Católica estabeleceu seu domínio sobre vários países durante toda a sua história e apoiou ditaduras: o exemplo mais conhecido é a simpatia entre o papa da época e os nazi-facistas Hitler e Mussolini. Hoje, o maior país protestante do mundo é também o maior imperialista e promove guerras, invasões e crimes em todo o mundo em nome de Deus, da democracia e da liberdade.

Porém, muitos cristãos lutaram contra a opressão em diversos momentos da história: Tomas Münzer e os camponeses alemães diziam que era preciso estabelecer o Reino de Deus aqui mesmo na terra, vivendo como os primeiros cristãos, em uma sociedade de igualdade entre todos e sem autoridade. “Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (Atos, 4:32), “então se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade” (Atos, 4:34-35). Lutero e os príncipes alemães usaram da força para matar Münzer e os milhares de camponeses que queriam por em prática os ensinamentos de Cristo.

No Brasil, cristãos vincularam-se aos movimentos de resistência à ditadura e na organização do povo: Paulo Stuart Writgh, um presbiteriano que era dirigente da Ação Popular Marxista-Leninista que foi preso, torturado e teve seu corpo desaparecido pela Polícia da Marinha era só um exemplo de militantes que faziam da libertação dos trabalhadores a sua missão cristã. Padres, pastores, missionários, leigos e bispos vinculados à Teologia da Libertação fizeram “a opção pelos pobres” e têm contribuído bastante nos movimentos populares da América Latina. Isso tem seu preço. O teólogo Leonardo Boff foi expulso da Igreja Católico por defender a “opção pelos pobres”. O pastor João Dias foi perseguido pela Igreja Presbiteriana do Brasil nos anos 60 por participar de um Congresso Cristo e a Revolução, em Recife. Eles seguiram Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Isaías, 61:1)

Terá o Cristianismo um caráter ambíguo que permite diversas leituras? Ou será que Cristo era um revolucionário e os cristãos também devem o ser? A idéia de Deus é mesmo um instrumento de dominação? Ou será que a religião pode ser também libertária? Marx dizia que a “religião é o ópio do povo” no sentido de que o ajudava a suportar a dureza da exploração: será que ela também pode ajudar o povo a se libertar?

1 de jul de 2010

O Novo Outro Lado



A rua Canabrava ou rua do clube é mais conhecida como “rua do outro lado”. Do outro lado do riacho? Do outro lado da cidade? Não sabemos precisar. Porém, sabe-se que foi nas margens do riacho Canabrava que começou, no fim dos anos 1840, o povoamento do município de Uibaí, São Gabriel, Central, P. Dutra e região circuvizinha imediata. A fazenda Canabrava pertencia aos casais Francisca e Venceslau Pereira Machado e Isabel (filha do casal) e José Pereira da Rocha (Zé Cazuza). Com o aumento demográfico e a chegada de migrantes, Canabrava cresceu, tornou-se povoado, ganhou uma igreja e um cemitério (1888) e, a partir do século XX, novas ruas. Daí surgiram, inicialmente, a Rua Nova e o Fundo da Marmita. Todavia, sobretudo, após a inauguração da Praça Nova e com a recepção de ondas migrantes que vieram em busca da "terra do feijão", é que houve uma nova configuração espacial da cidade.
Surgiu um novo "outro lado". Quem divide não é mais o riacho. Se tivesse vivo, o Riachinho, faria o papel da Avenida Presidente Dutra, o asfalto, que parte a cidade em duas. Uma parte, que se identifica como Rocha Machado, uibaiense autêntica, branca, católica-espírita, elitizada, universitária, cultural. Uma outra parte, o "outro lado", os "lá de baixo", são Machado pobres, Silvas, Carvalhos, Santos, de Jesus, Mateiros, Serranos, Nortistas, pretos, pobres, analfabetos, "de fora".
Todavia, não é abolindo a rua que separa que se resolve o problema. A divisão, embora se explicite geograficamente, é sócio-histórica. Há aqueles que tem grana, acesso à educação particular, saúde privada, carros, recursos. Há os que estão fora. Há aqueles que repartem o generoso leite da vaca azul em qualquer ocasião, em qualquer governo, que fazem especulação imobiliária, que pagam 70 reais para uma empregada doméstica fazer trabalho escravo. Há os que votam e, no resto do período, ficam esquecidos de saúde, da educação, do lazer, do saneamento. Há os que vivem de lucrar e os que lutam para sobreviver.
A divisão de Uibaí não é entre direita e esquerda, entre patos e ratos, entre amigos e inimigos do prefeito, entre quem mama e quem não mama na vaca azul. A diferença é entre ricos e pobres, entre trabalhadores e patrões, entre quem trabalha para sobreviver e quem vive para dar trabalho aos outros.
A “favela”, “lá em baixo” é um lugar geográfico, mas a classe trabalhadora é o novo outro lado de Uibaí!
A divisão também não simplesmente racial. Embora aqueles que são socialmente brancos por seguirem os valores e padrões étnicos brancos utilizarem do racismo como forma de dominação, dizer que a oposição é entre brancos e negros é um erro. De fato, não podemos desprezar que o "novo outro lado" cumpre um papel de resistência e reafirmação dos valores negros e tendam a assumir uma postura de autoafirmação. Mas dos dois lados é possível perceber origens complexas. Venceslau era mulato, filho de um português com uma africana. Casou-se com uma descendente de portugueses e índias. Seus descendentes misturaram-se com a família Pires Maciel ou Pires de Carvalho de português e índia, com os Ferreira dos Santos, mulatos, e com outras famílias. A ascendência portuguesa é marcada por judeus, marroquinos e árabes. Com a migração chegaram descendentes de negros, índios, portugueses, marroquinos, judeus, ciganos, etc. Como, então, dizer que existe uma divisão racial? Porém, culturalmente, há uma separação: entre os que são favorecidos pelo racismo e aqueles, do novo outro lado, que sofrem com agressões racistas. Agressões verbais e físicas na rua, na escola, no trabalho, no comércio, na política, no bar, na polícia.
O novo outro lado está quieto. Mas é só aparente. Quando se mover, será capaz de sacudir o "lado" do poder, do racismo, do capital, da opressão, da violência policial, da intolerância e da corrupção.