9 de jul de 2010

Projeto popular: atualidade do debate


Nota: O texto abaixo foi um manifesto que circulou na internet e em forma impressa no município de Uibaí entre julho e agosto de 2008. Seus redatores objetivavam um número de algumas dezenas de assinaturas de cidadãos e cidadãs uibaienses e divulgá-lo de forma massiva convocando a população a debater um projeto popular. Vários uibaienses assinaram o mesmo e o divulgaram na internet e em Uibaí. A segunda parte do plano não ocorreu por diversos motivos e o mesmo caiu no esquecimento. Para retirá-lo dos arquivos e devolvê-lo a luz, apresenta-se a seguinte justificativa: as premissas do texto continuam atuais e a avaliação do mesmo é, ainda, pertinente. Quem sabe agora, além do manifesto, possamos partir para medidas organizativas concretas?


Trabalhadores, trabalhadoras e jovens uibaienses

Para que serve o voto? O que são as eleições? O que é democracia? Essas perguntas elementares devem motivar uma reflexão. Sempre textos sobre anos eleitorais tem início destacando a importância do voto, como se o mesmo fosse natural e absoluto: o voto é e para sempre será. Parece que andamos subindo uns degraus da escada da história e finalmente chegamos na cobertura. Nossos bisavós não votavam. Nossos avós, tão pouco. Nós sim e isso, por si só, é maravilhoso. Nós, sim, tivemos o privilégio de viver em uma democracia.

Mas como é que pode essa contradição? Chegamos ao máximo de democracia que pode existir, mas estamos longe, bem longe mesmo da justiça social. Será que somos um bando de burros e nunca usamos a democracia (que do grego, significa “governo do povo”) para tornar as coisas melhores para nós? Será que o problema está em nós? Ou na democracia, aliás, na falta de democracia?

Não, companheiros, não chegamos nem ao final da história, nem ao máximo da democracia na política. Podemos e devemos querer mais. Por que nos satisfazer com as migalhas que caem da mesa dos “home” se podemos conquistar o céu? Por que vamos esperar que alguém faça algo se nós mesmos podemos fazer acontecer? Por que vamos permanecer isolados, desorganizados e egoístas se podemos nos organizar, nos juntar, criar força, ter mais voz?

E por que vamos dar tanta importância às eleições, ao ato de votar, e tão pouca ao resto todo? Bem, se não é bom com o direito de votar, muito pior foi quando o mesmo não existia na história do Brasil. Mas a ditadura militar das armas foi substituída pela ditadura liberal do dinheiro. E o cidadão só serve para votar “de quatro em quatro anos para mudar de dono” como diz o Subcomandante Marcos, um rebelde mexicano. E ficamos, nos iludindo, ansiosos por chegar à eleição e sair debaixo de botas velhas para sermos esmagados por botas novas. Os senhores podem ser sorridentes, malvados, cruéis, católicos, sanguinários, bondosos, caridosos, com boas intenções... mas senhores são sempre senhores e escravos são sempre escravos! E para que ninguém mais seja escravo é preciso acabar com o senhor! Inclusive com o senhor escravizador que existe dentro da gente e nos diz que devemos nos acomodar, que devemos nos acovardar e tirar vantagens que na verdade são esmolas e crer ser um aliado, quando na verdade se é um puxa-saco.

O voto não garante democracia. Ele, por si só, funcionaria bem se todos tivessem emprego estável, onde morar, o que comer, onde estudar, onde se divertir, onde cuidar da saúde, onde cair morto, tempo pra pensar, para aí, depois de tudo, ter “consciência”. Como posso ter “consciência” política se não tenho independência econômica? Na prática, os votos funcionam como um meio de conseguir um emprego para o parente, uma forma de agradecer um favor prestado ou um jeito de arrumar uns trocados. Isso é porque deram a todos o direito de votar, mas não o direito de comer. Democracia entre ricos e pobres vira ditadura do dinheiro.

Não votamos porque temos um “ideal” ou uma “consciência” abstrata. Votamos porque temos interesses. As pessoas vendem ou não seus votos por causa dos interesses. Os candidatos se movem orientados por seus interesses. Mas quais?

Os ricos estão o tempo todo defendendo os interesses de sua classe e seus interesses pessoais. Os pobres que acreditam que podem defender seus interesses particulares estão enganados. Seus interesses individuais não tem valor nem força alguma! Sozinhos, divididos, os trabalhadores pobres sempre perdem quando estão contra os interesses dos ricos. Em qualquer situação, os trabalhadores sozinhos, desorganizados, sempre perdem. Entre uma disputa entre um pequeno produtor endividado e um banco credor, quem ganha? Em uma disputa entre um trabalhador macaqueiro e um fazendeiro, quem ganha? Em uma disputa entre um pequeno agricultor e um grande dono de armazém, quem ganha?

Os trabalhadores não ganham coisa alguma quando estão isolados, desorganizados. Os trabalhadores podem conseguir algo, só se estiverem organizados. Somente organizados podem defender seus interesses de classes. E os interesses da classe trabalhadora são sempre contrários e opostos aos interesses de seus adversários de classe, os capitalistas, sejam eles comerciais, bancários ou industriais.

Não temos, em Uibaí, nenhuma candidatura que defende os interesses da classe trabalhadora e da juventude. Cada qual está tentando ver quem vai ficar com a parte gorda do bolo. De um lado, temos a confirmação explícita de trinta anos de ilusão e desordem iniciados com Hamilton (1982-1988) que elegeu Renato (1988-1992) que foi afastado para o retorno de Hamilton (1992-1996) que apoiou Birinha (1996-2004), que elegeu Raul (2004-2008). Do outro lado, a Frente de Libertação e Reconstrução de Uibaí pouco ou quase nada restou das grandes campanhas de oposição de Osvaldo Alencar (1976), Bernadete Alves (1982), ambos pelo MDB ou de Tarcísio (1988 ou 1996). Temos, sim, o retorno do que havia de pior na política de Pedro Rocha e Domingão representados em Pedrinho e no filho de Dorival. Não podemos crer que tais chapas possam dar andamento ao projeto de poder que nossa terra precisa. E, depois da festa, no fim das contas, aos trabalhadores só serão ofertadas as migalhas da mesa: uma carrada de areia, uma nota de cem ou cinqüenta reais, uma grade de cerveja, ou um grande favor prestado em uma hora de precisão.

Porém, sabemos que a simples mudança de nome na eleição não vai mudar o essencial. Será a escolha entre mais praças ou menos praças, mais reformas em escolas e estradas ou menos, mais ou menos denuncias de corrupção, mais ou menos a mesma coisa. Nós precisamos é de algo diferente. Nosso município está, cada dia mais, tornando-se inviável para as novas gerações. Cada vez menos empregos, cada vez menos perspectivas, cada vez menos trabalho, cada dia que passa menos esperança de que é possível viver com dignidade na nossa terra. E vão os retirantes buscar vida melhor nas grandes cidades, morrendo de saudade de casa! Precisamos mudar nossa realidade, mudar as condições de produção, mudar a agricultura e pensar uma educação e uma saúde que não seja a imitação do que dizem que é bom, mas que seja adequada aos fins e às necessidades da comunidade.

Os políticos de nossa terra não serão capazes de fazer isso. Sua força está na pobreza do povo e eles trabalham para ameniza-la, mas também para mantê-la. Somente os próprios trabalhadores poderão fazer isso, através de sua organização. Somente eles poderão construir e efetivar um projeto de poder popular que leve em conta as necessidades de nossa região.

Por isso, não vamos pedir votos a ninguém para nada. Ao invés de decidir entre 6 ou meia dúzia, decida em defender seus interesses de classe.

Decida pela elaboração de uma Projeto de Poder Popular que vá além da eleição de diferentes botas para os mesmos pés.

NÃO QUERO 6, NEM MEIA DÚZIA!

QUERO UM PROJETO DE PODER POPULAR!

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