15 de set de 2011

Voltar ao mouro

"Dessa vez, definitivamente, podemos dizer que o marxismo morreu como sistema filosófico, como alternativa política". Essa frase poderia ter sido escrita há uns dez anos, quando o Império do Terror despejava seus soldados pelo planeta, como um justiceiro que passava por cima de todo o direito internacional. Mas ela foi escrita no início da década de 1890. E hoje, mais uma vez, ela está ultrapassada e o pensamento do judeu alemão de cabelo crespo e pele morena, conhecido pelos amigos como "o Mouro", está entre os grandes interpretes do século XXI.
A crise econômica que abala o mundo, deixa a economia americana de joelhos, coloca a Europa à beira da depressão. Por outro lado, crises revolucionárias varrem o mundo árabe e ninguém sabe ao certo o que acontecerá em países como Egito, Líbia, Líbano, Iemen, Tunísia. Na Europa, greves gerais e quebra-quebras nas ruas da Grécia, Inglaterra, Portugal, Irlanda, Espanha e a ameaça da moratória da dívida grega pode abalar as economias de França e Alemanha, o que poderia levar à ação o movimento operário mais numeroso, educado e poderoso fora dos EUA. No Brasil, o ressurgimento de greves, rebeliões operárias, a continuidade da luta dos sem-terra, sem-teto, os movimentos indígenas-ambientalistas e um lento trabalho de formiguinha construído anonimamente em povoados, bairros e favelas de todo o país. "Um espectro ronda o mundo", o espectro de um "outro mundo possível". O de uma "sociedade civil auto-regulada", como dizia o revolucionário italiano Antonio Gramsci, proibido pelos seus carcereiros - com Mussolini à frente - de escrever Socialismo.
Mas o que é que esse filósofo alemão do século XIX tem a dizer pra nós, catingueiros da região de Irecê, em pleno 2011?
Se ainda não sentimos os efeitos dessa crise mundial, em virtude da relação do Brasil com a China, onde existe um oásis em meio ao deserto da crise mundial, podemos há muito perceber, na nossa cara, todos os dias, os efeitos destrutivos do "sistema sócio-metabólico do capital", na definição do filósofo húngaro, Istvan Mészáros. A crise da água representada pela destruição de nossas fontes de água potável, pela degradação dos rios Verde e Jacaré e pela incapacidade de abastecimento da barragem de Mirorós, são problemas causados pela dominação de um modelo econômico que privilegia o lucro privado imediato ao coletivo, ao ambiental, ao racional, ao social. A migração que expulsa a população jovem da região para ser mão-de-obra - qualificada ou não-qualificada - nas grandes cidades é causada pela divisão regional do trabalho que o capital nacional desenvolveu na nossa história. A corrupção que é uma marca dos políticos da região, se não é invenção do capital, é reforçada pela sua visão de mundo anti-pública, anti-coletiva, anti-humana.
Diante de todos esses problemas, não há dúvida que estamos às portas da barbárie. Mas uma polonesa que foi assassinada brutalmente pelos defensores da ordem capitalista em 1919, na Alemanha, Rosa Luxemburgo, já havia apresentado uma alternativa à catástrofe que o capital sempre teimava em repetir, de temos em tempos. Essa alternativa, tinha um nome: o socialismo. Ele continua na ordem do dia. Por isso, o velho mouro está de volta.

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