O SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS DE UIBAÍ através de sua diretoria esteve nesse sábado na câmara de vereadores prestando conta do ano de 2010, se posicionou acerca de vários temas pertinentes á categoria, conclamou aos recém efetivados funcionários da prefeitura a se filiarem para q com isso a categoria seja fortalecida, se solidarizou aos profissionais da área de saúde q falaram da triste situação em relação a salários e condiçoes de trabalho entre outros problemas do setor, estimulou os sindicalizados a pensarem na eleição da diretoria em maio, alertando para a questão da renovação da mesma mas com a permanencia da luta, enfim, fez tudo aquilo q um sindicato pode e deve fazer qdo não é pelego e molenga...
Fotos: Apresentação do Grupo de Teatro de Boca d'água em Quixabeira durante a Feira de Saúde (organizada pel Ceu de Fêra) e fotos dos arcos de Valdemar Araujo.
“Declaro que sou possuidor de um sítio denominado Olho d’água que comprei ao Coronel Ernesto Augusto da Rocha Medrado por UM CONTO E 200 mil réis o qual sítio possui duas léguas de largura, extremando pela parte do nascente no lugar Alto Grande confrontando com o Caldeirão da Gameleira, para o poente no desaguamento [Serra Azul, grifo meu] para o sul no Alto da Crus [não confundir com o atual povoado] e para o norte no Riacho do Meio.
Olho d’água 17 de abril de 1858. À rogo de Gonçalo José dos Santos. Padre Antonio Joaquim d’Abreu” (Registros Paroquiais de Terra. Xique-Xique. Fonte: Arquivo Público da Bahia)
Gonçalo José dos Santos aproveitou a vinda do padre e assim fez a declaração de sua propriedade. Infelizmente, não diz a data de sua compra, mas sabe-se que ocorreu na década de 1840, entre 1844-47 (Canabrava-Uibaí foi comprada ao mesmo Ernesto em 26/03/1847).
Com isso, Gonçalo não precisou de “procurador” nem de se deslocar até Xique-Xique e ali à frente do padre (responsável pelo recadastramento de terras) e assim ficar “quites” com as autoridades que vinham exigindo de quem tivesse terras “legais” que as declarassem sob pena de ficarem devolutas e assim arrumar problemas naquele momento e no futuro.
Gonçalo José dos Santos ao adquirir o sítio Olho d’água se torna o primeiro morador fixo da borda norte (lado de cá) na nossa querida Serra Azul. Ele que morava no Assuruá homenageou o lugar onde vivia, o Olho d’água de Joaquim dos Santos, depois Olho d’água do Cristal, hoje desabitado, num trecho do atual Gentio do Ouro, onde viviam índios tapuias mocoazes. Gonçalo era descendente deles pelo lado da mãe (filha de uma tapuia), já seu pai, tudo indica que fosse um ex-garimpeiro branco ou mestiço que se deu bem ao aventurar pelo Assuruá no início do século XIX quando vários garimpos de ouro explodiram na linda serra de nome tupi (ASSU = grande e RUÁ = serra).
O próprio Gonçalo, nas décadas de 1830 e 1840 ainda jovem (penso que ele nasceu entre 1820 e 1824) parece ter tirado a sorte grande na aurífera serrona. O cabôco teve como esposa a “mestiça” Raimunda Pereira Rosa, filha de um senhor chamado Faustino Rosa e de uma senhora, tudo indica, irmã de Venceslau Machado, fundador de Canabrava-Uibaí.
Naquele tempo, achar ouro era sinônimo de virar “fazendeiro” ou coisa parecida. O cabôco dos Santos, como muitos assuruaenses, não teve dúvidas, comprou caro, pois um conto e 200 mil réis equivalia a 120 cabeças de gado, de 12 a 15 burros cargueiros, o “trem” de maior valor na época depois de terra e gente escravizada, alguns quilos de ouro, dois a três escravizados jovens. Riacho d’Areia em 1854 custou menos da metade e mesmo assim se fosse hoje dava para comprar uma “railux” zero. Comprou também um bom pedaço de terra que misturava serra úmida (até hoje) com caatinga (área totalmente desvalorizada no período) e do seu arenoso-pedregoso Olho d’água do Assuruá veio com a família para o novo Olho d’água, na então “virgem” e promissora Serra Azul.
Além da mulher e talvez, um ou dois filhos, gado bovino, caprino e cavalar, é possível que tenha trazido um ou dois seres humanos escravizados. Era padrão na época: garimpar, bamburrar (achar “metal” e diamante), comprar gado e escravos, porém não ficou para a história nada que demonstrasse ou sugerisse que o cabôco cujos antepassados tapuias foram escravizados e praticamente dizimados pelos “brancos” e a “mestiça” Raimunda (provável neta de negra escravizada) tenham tido tais posses. No entanto, um filho deles, Tomás se casou com um moça cafuza chamada Manoela. Essa, tenho praticamente certeza que era a “cabrinha” (como consta nos documentos) Manoela, filha de Maria, uma africana que “pertencia” a Venceslau e, ao que parece, um filho dele.
Manoela nasce “escrava”, porém já adolescente foi viver com o marido no Olho d´água (Clarisse de João Brejeiro, sua bisneta, que a conheceu, a descreveu como “morenona”, grossona, bruta e de personalidade forte). Três filhos desses cafuzos-lusados (sangue luso, tapuia e africano) Bertolino Cabôco, Eugênio e Honório fundaram o povoado de Água Clara (de Presidente Dutra), os outros (foram mais de dez) deixaram muitos descendentes que antigamente eram conhecidos como os Cabôco da Água Clara e Cabôco do Olho d’água. Curioso é que o casal Gonçalo e Raimunda só tiveram filhos homens (Nicolau, Tomás, Manoel, Pedro, José, João e talvez Francisco) e com isso o sobrenome Alves Santos ainda é disseminado em Uibaí e P. Dutra.
Olho d’água/Boca d’água hoje é o maior povoado de Uibaí (cerca de mil habitantes), lugar bonito, atraente, com invejáveis recursos naturais. Está mais do que na hora de se pensar (sobretudo seu povo) em dar um novo salto e tornar-se vila-distrito. Que tal Vila Gonçalo?
A política de Uibaí já foi de cobras e lagartos. Farpas, brigas de rua, tiroteios, fogos de artifício em cima das casas de adversários, polícia, fórum e juiz. Tudo isso parece que ficou para trás. Não se sabe até quando, mas agora a política de Uibaí é de cães e gatos. Cães fiéis, adestrados, com uma língua de fora, sem dentes. Gatos ladinos, espertos, sorrateiros, traiçoeiros, mas sutis. A eleição da Câmara foi isso. Os partidários mais próximos a Pedro Rocha batizam a eleição de Davi para a presidência como traição. O nome mais bonito que Dóris, por ser presidente do PT e ter se coligado com Marcão e Edson Filho para derrotar a candidatura de Tarcísio para presidente da casa, foi Judas Iscariotes. Mas como nessa história não tem nenhum Jesus e tem muitas moedas de prata, resta perguntar: por quê o racha interno no governo? Obra de Birinha? O mesmo poderia ter soltado fogos e assumido a articulação da eleição. Afinal, seria dizer: disseram que eu acabei quando perdi o apoio de Hamilton e Armênia, pois olha aí, elegi o presidente da Câmara. Mas, ao contrário, seus partidários negam o envolvimento do mesmo na eleição. Quem mais diz que Birinha está envolvido são os seus recentes correligionários, Luís e Armênia, agora dois fiéis vereadores da base de Pedro. A eles, derrotados, desalojados da mesa diretora, interessa associar a atual presidência ao principal adversário do prefeito. Afinal, se Doris e Davi perderem espaço dentro da prefeitura, eles podem ocupar as vagas. Edson Filho, Dindo e Marcão se interessam em compor a mesa diretora por terem perdido espaço na gestão de Luís que monopolizou os recursos da Câmara e fez uma presidência autoritária, perseguindo servidores e até com os próprios vereadores da mesa. Esses três estariam interessados mais na derrota de Luís dentro da Câmara do que na vitória de Birinha fora dela. E os Judas da história? Doris e Davi? Traíram Pedro Rocha e foram comprados por Birinha? Parece simples demais. Ninguém abandona o barco andando. Os dois primeiros anos de governo foram muito mais difíceis e muito mais propícios para um afastamento do PT. Logo agora, que o governo de Pedro está acertando, faz sentido sair? Para quê? Apoiar um grupo moribundo que agoniza na UTI? Afinal de contas, o atual prefeito tem ligação forte com 2 deputados federais, um ministro de Estado – Afonso Florence, de Morro do Chapéu, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (aquele que se elegeu com as casas populares) – dois deputados estaduais, um governador e uma presidente. E à oposição carlista, que resta? Ligações pessoais com o vice-governador, um deputado estadual e um federal, todos da base de apoio dos governos do PT. Nos discursos, em tom de defensiva, Davi e Dóris falaram em autonomia da Câmara, elogiaram Tarcísio, elogiaram Luís – o mesmo que foi contra o projeto de lei de assistência estudantil em 2005, perseguiu servidores, mudou de bancada, um camaleão – e disseram que ajudaram o governo Pedro Rocha. Na rádio, Davi falou abertamente que Dindo, vereador da base aliada do governo do PT, propôs uma chapa e articulou a eleição. Ou seja, tivemos uma eleição em que duas chapas queriam mostrar qual era a mais governista. Pedro Rocha ganha e perde. Ganha porque Davi e Dóris perceberam que ele está com a bola toda com o povão e que se afastar dele pode ser perigoso. Daí se colocarem a favor dele, mesmo sendo contra ele em algumas coisas. Mas o prefeito perde. Mostra que não conseguiu eleger a sua chapa para presidência, que não sabe articular bem sua base legislativa, que foi bom em enfraquecer seus adversários, mas é ruim em agradar seus apoiadores. Davi e Dóris ganham e perdem. Ganham porque têm uma poderosa máquina na mão. Mas perdem por associarem, junto às bases governistas, seus nomes com os de Marcão e Edson Filho, vistos como fiéis escudeiros de Birinha. Ganham o apelido de traidores do prefeito. Eles, que são do mesmo grupo desde os anos 1980, viram o sonho de governo realizado se desmoronar e perderam cada vez mais espaço para Dorival, Luís e Hamilton, inimigos históricos. Por questões internas da Câmara, Dindo, Edson e Marcão, para derrubar Luís, se aliaram contra ele. Por questões internas da prefeitura, Dóris e Davi quiseram mostrar independência frente ao autoritarismo e arrogância de Pedro Rocha e se queimaram em suas bases fazendo alianças com adversários de ontem, contra aliados de sempre. Por questões internas do partido, Dóris perde espaço no PT uibaiense e vai dever explicações ao partido estadual por que não votou numa chapa presidida pelo PT e sim numa do PDT. Por questões de sobrevida política, Armênia, Dorim, ops, Viviane e Luís se mostraram fiéis a Pedro Rocha e, se perderem espaço dentro da Câmara, vão querer compensar dentro da prefeitura. Por questões internas nas bases petistas, Tarcísio se fortalece, não mais por ser crítico, amigo da verdade, inimigo da corrupção e incorruptível, mas por ser fiel, leal, mesmo com a certeza da derrota.
Tivemos uns dias de "férias". Limpamos a casa, reagrupamos o povo, recomeçamos o trabalho. Sempre combinando o "otimismo da vontade" com o "pessimismo da inteligência". Circulamos em Uibaí a nova (número 5) edição impressa do informativo A Indaga. Publicaremos paulatinamente as matérias do mesmo. Aguardamos sugestões, críticas e contribuições dos nossos leitores para que 2011 seja mais democrático, mais plural, mais solidário e menos ignorante. "Só a experiência é capaz de corrigir e de abrir novos caminhos" Rosa Luxemburgo (1871-1918)
Estamos chegando ao fim do ano e Uibaí vai entrar na fase das visitas de seus filhos que nasceram no pé-de-serra, mas foram chutados pela estagnação econômica ou pelo monopólio político de 5 ou 6 famílias sobre os poderes. Também chegam aqueles que são adotados: filhos ou casados com uibaienses, de outras terras, mas que adotam o lugar como um símbolo de status. Do dia 15 de dezembro até princípio de janeiro, vai ter gente estranha na rua (aos olhos dos uibaienses que moram em Uibaí desde sempre): uns até que ninguém nunca viu nem na feira.
Mas qual a razão de tanto amor e tanto bairrismo? Ora, o ser humano até se acha muito iluminado, mas em muita coisa não é diferente dos resto dos bichinhos da natureza. Somos territorialistas por natureza. Dá pra dizer, sem medo de ser feliz, que a grande maioria das pessoas não quer sair de sua terra. São poucos os ousados que buscam as luzes da cidade grande: a maioria queria viver em paz na sua terra com sua gente. Mas não pode! A região oferece muito pouco ainda em educação, em emprego, em salário, em lazer. Os que conseguem ficar o fazem com muita força de vontade e alguma sorte ou outros fatores. Quem quiser que se pique! Sertão: deixe-o. Não tem lugar pra todo mundo.
Mas se somos bichos como outros, uma coisa nos diferencia da galinha, das perdiz e do anda-só. O ser humano significa as coisas. E orienta sua vida com base nos significados que vai criando. Uibaí não é só uma "cidadezinha qualquer". Tornou-se um símbolo de status: afinal, somos reconhecidos e nos orgulhamos de nossa inteletualidade sertaneja, de nosso "folclore", de nosso pitoresco, de nossas peculiaridades.
Quando saímos, levamos tanto chute por pobreza, por cor de pele e cabelos, sotaque, origem geográfica. Se for na Salvador, cidade de desigualdade gritante onde há castelos cercados por montanhas de miséria, somos do "interior". A maravilhosa e pacífica Rio de Janeiro: paraíba. A ordenada e metropolitana São Paulo: baiano. As provincianas Feira de Santana, Vitória da Conquista: pernambucanos?
A saída? Passar a chiar igual a um "rádio velho", na ironia dos nossos irmãos que satirizam os que não mantém suas raízes sociolinguísticas. Passar um mês em Salvador e voltar dizendo "mainha, painho, abará, vatapá, barriô". Em São Paulo: "o" José tá adoóórando lá. Em Feira: Poooorra, man, o barrio é pobrema. Para não ser desprezado por um esteriótipo, adota-se outro.
Ou então, bicho, resignifica-se a coisa. Vira a mesa. Nascer em Uibaí, no Sertão, torna-se um símbolo de orgulho. Ser uibaiense é sinônimo de ser privilegiado. E aí, dá-lhe coisas boas: água da formosa, estaladinho, Fonte Grande, doce de leite com rapadura, etc. O que tem de uibaiense que caiu na diáspora e quando volta descobre, atônito: "que Serra filé, morô, quero conhecer". Em geral, aguenta um Peixe ou um Riacho do Meio. Uma subida de Serra dos Bois ou de Sete Voltas não é pra qualquer sertanejo que se perder na diáspora. Mais cômodo é acomodar-se num boteco e dar a falar de como o povo é inteligente, criativo, universitário, estudioso. De fato, é inegável que exportamos mão-de-obra assalariada com muita qualificação. E sem qualificação também. Produzimos o exército de reserva. E quase mais nada.
Amor interessante esse. Fazer o quê: deve ser o andú.
Acima: Fernandinho Beira-Mar, símbolo do tráfico de drogas nas favelas cariocas e Horácio de Matos no famoso Convênio de Lençóis, em 1920, maior representativo do coronelismo na Chapada Diamantina.
Quando se quer esteriotipar o nordestino, sobretudo o sertanejo, sem querer usar argumentos racistas - "cabeça chata", quase que por natureza "raquítico" e "pequeno" - e até passar por dono de um discurso sociológico, nada melhor do que apelar para o "coronelismo". Afinal, essa prática de chefes locais ultrapoderosos, donos de tudo e de todos, usuários de práticas clientelistas, mandonistas, até mesmo de grupos paramilitares, são uma vergonha, uma mancha na história do país que teria, supostamente, sobrevivido até hoje nos "grotões": pode ser uma boa Bahia - dá-lhe ACM - um Ceará, um Pernambuco, mas serve também para um Mato Grosso, um Goiás e um Amapá, afinal, é tudo fora do Sul-Sudeste, mesmo.
Curiosamente, quando vamos analisar com mais precisão os argumentos do "coronelismo", próprios de cidades de interior atrasadas, em especial, as nordestinas, vemos que o conceito não se sustenta. Coronelismo moderno é um termo que serve para tudo e para todos. Um termo vago, sem sentido algum, que é ótimo, todavia, para fundamentar um discurso pobre em análise de realidade, mas bastante eficaz, quando se quer taxar o adversário de sinônimo de atraso, autoritarismo, arrogância, perseguição, violência.
Vamos às matrizes teóricas e não conseguimos ver grande coisa também. Victor Nunes Leal, um jurista carregado de preconceito, generaliza uma análise institucional de meia-dúzia de leis, mistura com sua experiência de juiz no interior de São Paulo e propõe a ideia de um sistema coronelista que é uma anomalia social e paradoxal, pois é a sobrevivência do atraso.
A tentativa de dar criticidade ao conceito de coronelismo feita por outros cientistas sociais como Maria Isaura Pereira de Queiroz, José de Souza Martins e Eul-Soo Pang fracassa: sempre o coronelismo é um sistema homogeneo que inclui tanto o coronel-bacharel que pratica a eleição no voto de cabresto, quanto o coronel0-jagunço que simplesmente falsificava as atas eleitorais em eleições de bico-de-pena e decidiam as suas rixas políticas na boca do papo-amarelo - o apelido carinhoso de alguns rifles de repetição.
E mais curioso ainda é associar práticas tradicionalmente "coronelistas" como típicas de "grotões" do interior, como a Chapada Diamantina e o São Francisco, berço de ilustres coronéis, conhecidos internacionalmente, como Franklin Lins de Albuquerque, Horácio de Matos e Marcionilio José de Souza. Porém, algumas coisas muito semelhantes, como as organizações criminosas de favelados no Rio de Janeiro, são coisas muito, mas muito modernas, representando um defeito do que há de mais moderno. Quando observamos, porém, algumas características, será que são tão diferentes assim?
Manutenção do poder com base na força paramilitar, conflito com o Estado, construção de um poder paralelo, opressão da população, perseguição, uso da violência... Será que quando isso acontece no Nordeste é coronelismo e quando acontece no Rio de Janeiro é crime organizado? Um atrasado e outro moderno? ambos negativos. Faz lembrar a crítica feita nos meios internéticos à análise dos jornalistas da mídia sobre o deputado federal mais votado do Brasil: Tiririca. De acordo com os críticos, se fosse em algum Estado do norte-nordeste, seria "manifestação do atraso, da burrice e da ignorância" do povo nordestino. Mas como é São Paulo, é "voto de protesto".
Nordeste e Sudeste produzem juntos uma política muito semelhante. Basta ver que, desde o fim da ditadura, a maioria dos presidentes foram nordestinos - Sarney do Maranhão, Collor de Alagoas, Lula de Pernambuco - mas tinham poderosas bases de poder no Sudeste. A diferença é que no Sudeste, a construção da identidade de "moderno", "dinâmico" e "trabalhador" passa pelo discurso de alteridade e negação do outro, o nordestino, que seria o "atrasado", o "ignorante", o "preguiçoso".
A estrada da serra mal está "completa" e já é motivo de mais alvoroço e dúvida. Trata-se dos projetos de implantação de energia eólica que estão em vias de concretização no alto da Serra da Canabrava. De acordo com agricultores serranos, presentes em reunião da Associação Serrana com prefeito, representante do IMA e sociedade civil uibaiense, trata-se do grupo Casa dos Ventos que busca contratos de arrendamento em pontos estratégicos para implantação de torres com cata-ventos para teste com produção de energia eólica.
De acordo com a própria empresa em seu endereço eletrônico, os projetos de energia eólica são muito, mas muito legais
"A instalação de um parque eólico, no entanto, não gera apenas ótimos recursos financeiros para o proprietário da terra. Além desta remuneração, o projeto traz inúmeros outros benefícios indiretos para a região. Podemos citar, por exemplo, a melhoria das vias e acessos nas localidades, já que isto se faz necessário para o transporte dos equipamentos. Além da melhoria na infra-estrutura, as comunidades serão impactadas positivamente com a geração de emprego e renda, resultando em um maior dinamismo da atividade econômica local. Outros benefícios englobam aspectos como o incentivo ao turismo na região e o aumento da arrecadação do município onde o parque é instalado. Além de todos estes fatores, vale ressaltar um dos benefícios mais importantes, que é o da contribuição ao meio ambiente. A região será responsável pela geração de uma energia ambientalmente responsável e estará evitando a emissão de gases causadores do efeito estufa ou o alagamento de áreas florestais." (Fonte: http://www.casadosventos.com.br/arrendantes. Acessado em 28 de novembro de 2010).
Coisa lindíssima. Os eleitores verdes de Marina Silva agradecem. Afinal, renda, sustentação ambiental, turismo ambiental, etc. Nós, porém, não nos permitirmos tal inocência: deixemos para Sancho Pança. "Não são apenas moinhos de vento".
Trata-se de gigantes. A Casa dos Ventos não é uma ONG de hippies: é um braço de energia eólica do grupo empresarial Albatroz, que atua nos ramos têxtil, financeiro, automobilístico e de construção civil. Era detentor da maior montadora de automóveis do país e atua também no setor imobiliário.
Teremos a convivência agora com grandes grupos empresariais do setor de energia, talvez o mais estratégico que existe. De fato, como a energia eólica, indiscutivelmente superior à energia dos combustíveis fósseis. Todavia, como os grupos populares estarão presentes dentro desse novo projeto de energia? Naturalmente, o grande capital não vai pôr postes com pás para fazer energia limpa. Por trás disso está dinheiro, mas muito dinheiro em jogo.
Sabemos que o capitalismo do carvão mineral possuía uma geopolítica muito diferente do capitalismo do petróleo. O do carvão foi o combustível do neocolonialismo que massacrou populações da África e Ásia. O petroleo moveu duas guerras mundiais e está na raíz das mais estúpidas e truculentas guerras que ainda presenciamos: Iraque e Afeganistão. O Iraque é grande reserva e no Afeganistão está o mais estratégico oleoduto do planeta, o que abastece a China. Agora, por petroleo, o imperialismo cria artificialmente um contexto de tensão sobre Irã, coisa que já havia acontecido com a Venezuela. Sabemos que não há nenhum Che Guevara à frente desses dois países: são regimes nacionalistas que não conseguiram romper com a lógica do capital e continuam mantendo a ordem e sustentando a exploração de seus povos. Mas não é isso que causa aversão nas imprensas. Aliás, a imprensa mercenária só faz o que lhe manda quem paga seu soldo. A Veja ou a Globo nunca denunciará o regime teocrático da Arábia Saudita ou dos Emirados Árabes Unidos, enquanto esses pedirem a benção às grandes empresas petrolíferas, sem nenhum tipo de arremedo de soberania.
Como será o capitalismo dos moinhos de vento? Será que nossa velha Serra da Canabrava será lançada, pelas pás dos gigantes, ao olho do furacão da história mundial e lidaremos diretamente com as grandes empresas? Como se inserem no modelo de energia eólica os interesses populares e a defesa do meio ambiente?
Não se iludam com a "onda verde" das empresas - empresas que por sinal, causam a maior destruição ambiental da história justificada em nome do progresso e do desenvolvimento, ou seja, de lucros extraordinários de meia dúzia de acionistas em detrimento de milhões de pessoas e das novas gerações.
Empresas são empresas, fazendo guerras no Iraque ou assinando contratos na Serra da Canabrava. Trata-se, somente, de uma questão de método necessário.
Não são, pois, apenas moinhos de vento. São gigantes!