15 de fev de 2010

O MOVIMENTO VICENTE VELOSO COMO UM INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO POPULAR


Nota: o presente texto foi de circulação e discussão interna do MVIVE em dezembro de 2008. Apresenta algumas questões a partir da experiência de atuação do grupo.



A educação muitas vezes é vista como uma questão de escolas normais, técnicas e universidades que está restrita aos espaços formais. Nada mais incorreto confundir educação escolar com educação. A educação entendida como experiência de socialização e de formação política, moral, cultural, etc. compreende vários espaços, sendo alguns dos fundamentais: a família, o trabalho, a religião, a política partidária, etc. Para tornar mais evidente a distinção entre educação escolar e educação no sentido amplo, vamos chamar essa de educação social. Se entendemos que existe educação é porque existem educandos e educadores. No caso da educação social, os educandos são todos, inclusive os educadores. Educadores são, entretanto, pessoas em determinadas posições de comando (pais, mães, chefes de obras, patrões, gerentes de empresas, delegados, policiais, juizes, oficiais de justiça) ou de influência (professores, diretores, padres, jornalistas, radialistas, etc.).
Esses educadores são chamados pelo filósofo revolucionário italiano Antonio Gramsci de intelectuais. Segundo ele, “Os intelectuais são os ‘prepostos’ dos grupos dominantes para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso ‘espontâneo’ dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo dominante à vida social, consenso que nasce “historicamente” do prestígio (e, portanto, da confiança) obtida pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparelho de coerção estatal que assegura ‘legalmente’ a disciplina dos grupos que não ‘consentem’, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo” (Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, vol. 2)
Política e Educação Social
Podemos dizer que se a situação política é insatisfatória é por que temos uma educação deficiente. A totalidade social é sempre bastante influenciada pela educação social. Todavia, a totalidade social define a educação. É uma rua de duas mãos. “A doutrina materialista de que os homens são produtos das circunstâncias e da educação, de que homens modificados são, portanto, produto de outras circunstâncias e de uma educação modificada, esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador tem de ser educado” (Marx, Teses sobre Feuebarch).
Se temos uma sociedade autoritária onde as hierarquias são rígidas, opressivas e parecem, na cabeça da maioria das pessoas, inamovíveis como o céu e a terra é porque temos uma educação social que assim nos ensina. Se aprendemos dentro de casa que deve-se obedecer sem questionar, se aprendemos na escola que deve-se obedecer se ser disciplinado, se aprendemos no trabalho que o melhor é não questionar as péssimas condições de trabalho, a precariedade das ferramentas e os baixos salários, enfim, se aprendemos tudo isso e permanecemos tal qual a educação social no educou, teremos então aceitação passiva a uma política autoritária e aos mandos e desmandos de chefes. Pois, na pobre cabeça ingênua, assim como o pai ou a mãe, o patrão e o professor ou diretor são autoridades inquestionáveis e que nunca erram, o representante político, seja prefeito, vereador ou deputado será sempre o mesmo, ou gente do mesmo tipo (geralmente rica), e que nunca a situação mudará. De uma educação social autoritária temos uma ordem social correspondente.
Num passado recente, em nosso município, tínhamos uma Pedagogia da Palmatória: ela consiste no fenômeno histórico que foi o conjunto de práticas e idéias referente a uma forma de educação escolar baseada no aprendizado pela força e pela ameaça (coerção e coação), sustentadas fortemente por um catolicismo tradicional e conservador. Aprendia-se a contar, ler e escrever. Cassimira Maria Machado, um grande exemplo dessa Pedagogia da Palmatória, fazia o argumento: uma roda de alunos respondia a uma sabatina: quem acertasse espancava quem errasse. Aprendia-se o respeito à autoridade, à Igreja e a obediência incondicional. Essa pedagogia sustentava uma política autoritária, onde não havia voto, os representantes eram escolhidos pelo dinheiro e pela força das armas, sem participação política do povo trabalhador, o chamado coronelismo. Não só a educação escolar, mas também a educação social (família, trabalho, etc.) eram espaços autoritários e ainda bastante marcados pela escravidão que operava uma idéia de que se fosse dono de alguém tinha o direito de fazer o que quisesse e bem entendesse.
É preciso fazer duas considerações a respeito da educação social.
1) os espaços que a produzem não são homogêneos. É muito provável que haja duas vertentes distintas nesse espaço, pois, eles são marcados pela contradição. Ela pode ser uma contradição entre sujeitos diferentes: numa mesma escola, pode haver um professor bastante atrasado do tipo: “o professor sempre tem razão” e um professor progressista, aberto, que discute e decide as questões da sala de aula coletivamente. Ou então, a contradição pode estar presente no mesmo educador social: um pai que ensina ao filho a obediência, mas também a dignidade. Quando a obediência entra em contradição com a dignidade o educando faz a sua escolha: desobedece e conserva sua dignidade ou perde-a para manter a hierarquia que não o respeita. Há também o caso de um padre católico que pode educar os seus fiéis que Deus é grande, é autoridade, é tudo, e cada fiel é pequeno, é servo, é nada. Ou então, pode dizer aos mesmos que Jesus, filho de carpinteiro e também trabalhador manual, homem do povo, dizia que “é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de deus”, condenando a riqueza e dizendo que quem conhece a verdade pode se libertar das leis opressivas e corruptas.
2) A mensagem depende da recepção do educando. A formação de uma pessoa é ampla: ele pode estar imerso em uma família autoritária e em uma escola libertária. Ou então, ele pode estar em uma família, em uma escola e em relações de trabalho opressivas e levantar-se contra elas. O educando tem uma relativa autonomia para tornar-se um dependente, um escravo, ou um rebelde social, um livre.
Daí a importância de uma nova educação social: criar os espaços para que o novo homem e a nova mulher, livres das correntes da obediência incondicional, da autoridade suprema, da auto-estima baixa, da ignorância. Em nosso país temos vários exemplos e espaços de nova educação social: sindicatos combativos, comunidades organizadas, ligas camponesas, quilombos de ex-escravos que fugiam de seus senhores, Canudos dos discípulos de Antonio Conselheiro, partidos de esquerda. Alguns são mais avançados do que outros. Não é possível comparar o papel de nova educação social de um quilombo no tempo da escravidão para uma cooperativa em tempos de “democracia” liberal. Mas é inegável que todos os espaços que ensinam em alguma medida a solidariedade, a força da coletividade, a organização autônoma, o desrespeito ao autoritarismo são espaços de nova educação social.
O Movimento Vicente Veloso é um espaço de nova educação social para seus membros e cria novos espaços semelhantes para o povo. Quando organizamos uma reunião e falamos da importância da organização do povo; quando mostramos ao povo que o Estado somente torna efetivos os direitos dos trabalhadores quando estes se movem e lutam por eles; quando fazemos um jornal que denuncia a opressão, a injustiça e a violência do Estado capitalista; quando contribuímos na luta por transparência, justiça, democracia e participação popular nas decisões importantes, estamos construindo um espaço de nova educação social.
Mas o movimento não é um fim em si. Ele não se esgota em si mesmo. Sabemos que a história não é uma roda que só anda pra frente: ela avança e retroage para depois avançar. Então a organização popular só serve quando está com um objetivo maior. De fato, lutamos para que o povo trabalhador tenha garantido seus direitos, tenha uma vida melhor, tenha acesso a saúde, educação públicas que satisfaçam suas necessidades, tenha trabalho, justiça social e dignidade.
Nosso fim é uma sociedade onde o povo tome as decisões importantes a respeito do poder e da riqueza. Nosso fim é uma sociedade na qual cada um tenha direito de acordo com a sua necessidade. Trata-se de passar do reino da necessidade para o reino da liberdade.
Educação social: o povo é o público alvo?
Mas se pensamos em fazer uma nova educação social é preciso perceber que todo processo educativo é uma relação. E toda relação pedagógica exige educador e educando. O Movimento Vicente Veloso sendo um educador coletivo que está junto ao povo, auxiliando-o na sua organização, criticando-o quando o mesmo apegar-se a valores mesquinhos, corporativistas e egoístas. Todo educador pressupõe um educando. Educar a quem? Ao povo, mas quem é o povo? Antonio Carlos Magalhães era povo? Seus representantes menores, os vereadores e diretores de escola de Hidrolândia são povo?
O conceito de povo é bastante controverso. Ele tem seu uso moderno sobretudo na formação do Estado Nacional Moderno. Povo seria o conjunto de pessoas de um país que fala uma língua comum, tem uma cultura comum e um Estado e governo comum. Daí falaríamos, em povo brasileiro, povo francês. Cada povo teria seus símbolos como o hino francês, o hino brasileiro, a seleção de futebol brasileiro, a bandeira, etc. Com o passar do tempo surgiram novas idéias a respeito de povo: se povo é um conjunto de gente com uma cultura e uma língua, ou mesmo uma forma peculiar de falar uma língua podemos falar que no Brasil existem vários povos. Existe o povo Tupi, o povo Pataxó, o povo Kariri e muitos outros povos indígenas. Tem gente que vai mais longe: fala em povo serrano, povo ribeirinho, povo sertanejo, povo catingueiro...
No Brasil, para além desses usos que designam elementos de identidade nacional, o termo povo é tem um viés classista. Povo é gente das classes populares. Povo é pobre, trabalhador, popular. Mas pobre não é somente uma designação de classe social, mas também cultural. Na medida em que cada classe tem sua cultura, a origem e a situação cultural de uma pessoa podem fazê-la “do povo” sem que o mesmo seja, então, uma pessoa das classes populares. Lula é o melhor exemplo disso: não fala “difícil”, bebe cachaça, usa exemplos práticos do dia-a-dia das classes populares, é de origem operária. É povo. Mas ninguém crê que Lula seja um homem pobre hoje.
Em Uibaí, podemos observar que existe uma outra distinção: entre povo e intelectuais. Intelectual seria o que estudou. Povo não. Trata-se, todavia, de uma questão de formação, nem sempre econômica. Há gente rica que não tem sequer o ensino médio e professores com nível superior que podem ser considerados pobres. Desse modo não podemos fazer uma relação direta entre povo e pobreza. O primeiro é uma construção mais complexa do que somente indicadores econômicos podem indicar. O nosso movimento estaria direcionado a educar o povo, então?
Karl Marx diria que não. O mesmo desenvolveu uma teoria com o objetivo de fundamentar a prática de militantes que atuassem junto ao movimento dos trabalhadores para a transformação do mundo capitalista em mundo socialista. Ele defendia o que se traduz comumente por proletariado. Todavia, há dois problemas na conceituação.
Primeiro que o termo é de uso restrito. É mais um termo de intelectuais do que um termo de uso “popular”. Segundo que o termo é mal interpretado. Muitas vezes usa-se como sinônimo de operário industrial. Seria, então, para Marx o trabalhador de indústria o sujeito revolucionário que se devia educar para a transformação. Não é verdade. Para Marx, o proletariado, a classe revolucionária, seria o conjunto de pessoas que vivem do próprio trabalho e que, através das relações capitalistas, tem uma parte de seu tempo de trabalho (a mais-valia) destinada para o capitalista, uma pessoa que não trabalha e que vive, muito bem por sinal, de explorar o trabalho alheio.
De acordo com Marx a exploração do trabalhador seria a principal base do capitalismo. O capitalista se move com a intenção de maximizar seus lucros do maior modo possível: isso explica boa parte das modernas fraudes, corrupção, guerras de conquista, etc. A tarefa da nova educação social, ou como Marx utilizava mais, dos revolucionários, seria contribuir para a formação de uma consciência de classe entre os trabalhadores que pudesse fortalecê-lhes o seu movimento por direitos de modo a chamar a atenção para que os trabalhadores pudessem, eles mesmos, transformar seu movimento em movimento político e conquistar a hegemonia política na sociedade. Uma vez no poder, a principal tarefa dos revolucionários seria acelerar a destruição do capitalismo e criar uma nova sociedade. Che Guevara chamava a atenção para o fato de que os objetivos do socialismo não são somente criar um mundo onde não haja a divisão entre trabalhadores e exploradores, um mundo no qual não haja miséria, mas sim criar o novo homem e a nova mulher libertos da ignorância, da alienação e do egoísmo.
O nosso público alvo seria, então, os trabalhadores, já que a história mostra que os exploradores não entregam nunca de mão beijada os seus privilégios e que utilizam da maior força bruta para mantê-los. A revolução que precisamos, anti-capitalista, democrática e popular, não pode ser feita com os exploradores, mas também não pode ser feita sem os trabalhadores. O nosso Movimento, portanto, visa contribuir na organização dos trabalhadores, e por que não dizer, na organização popular.
Para contribuímos na organização do povo é preciso, primeiro, conhecê-lo e respeitá-lo. Mas a nossa intenção é transformá-lo, para assim, transformarmos a sociedade. Transformar o povo consiste em transformar sua filosofia de vida, suas concepções de mundo. E o homem comum, do povo, sustenta suas visões de mundo em elementos de fé. Essa fé “Mas fé em que e em quem? Sobretudo no grupo social ao qual pertence, na medida em que este pense as coisas também difusamente (...) O fato de ter sido convencido uma vez, de maneira fulminante, é a razão da permanente persistência na convicção, ainda que não se saiba mais argumentar” (Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, vol. 1.)
Devemos utilizar a linguagem do povo, mas não podemos nos contentar com ela. Educando os trabalhadores para a ampliação de seu horizonte cultural, para a elevação de seu nível intelectual estaremos contribuindo para que o mesmo tenha melhores condições de luta e de organização.
Gramsci nos dá algumas outras formas de educação popular: “1) não se cansar jamais de repetir os próprios argumentos (variando literalmente a sua forma): a repetição é o meio didático mais eficaz para agir sobre a mentalidade popular; 2) trabalhar incessante para elevar intelectualmente camadas populares cada vez mais vastas, isto é, para dar personalidade ao amorfo elemento de massa, o que signifca trabalhar na criação de elites de intelectuais de novo tipo, que surjam diretamente da massa e que permaneçam em contato com ela para que sejam seus ‘espartilhos’”. (Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, vol. 1).
Por último, nesta lista incompleta, para que sejamos um educador coletivo, precisamos da práxis: ou seja, da unidade entre teoria e prática. Sobre isso, Goethe já dizia que “São verdadeiramente poucos aqueles que refletem e ao mesmo tempo são capazes de agir. A reflexão amplia, mas debilita; a ação revigora, mas limita”. Lênin já dizia que “sem teoria revolucionária, não existe movimento revolucionário” e que a teoria é fundamental para a prática na medida em que permite a “análise concreta das situações concretas”.
Fazer parte de um educador coletivo exige a formação individual constante e a formação coletiva afinada. O Movimento Vicente Veloso é um educador coletivo para uma nova educação social. E, acreditamos (porque também somos povo e também precisamos de elementos de fé) que com o crescimento e avanço de uma nova educação social, capaz de criar um forte movimento popular e uma ousada intervenção política do povo, em escala latino-americana, seremos capazes de fazer do mundo que queremos um mundo real onde haja justiça, paz e liberdade!

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