2 de mar. de 2011

Dilma em Irecê: decepção e reflexão





A visita da presidenta da República Dilma Roussef em Irecê no dia primeiro de fevereiro foi decepcionante, estratégica e deve servir de reflexão sobre qual região queremos.

Decepção. Caravanas de vários municípios da região alugaram carros, vans, ônibus. Trabalhadores pegaram suas motos e veículos e se deslocaram para a capital da região para ver a mulher mais poderosa do mundo cara a cara. Alguns por admiração, outros por ligação política, outros porque queriam ver uma celebridade. A grande maioria teve que se contentar com um aceno rápido de mão e um sorriso. Além, é claro, do telão que foi instalado para que o “povão” assistisse. O local onde ocorreu o evento, o Granfest, é minúsculo para receber um presidente da república. A presidenta ficou lá dentro, com os “escolhidos”. Afinal, era preciso ser “credenciado” para entrar. Sinal dos tempos que virão: para o povo, o aceno de longe e um telão. Pessoalmente, só alguns, autoridades, dirigentes de movimentos sociais alinhados ao governo, políticos, empresários e algumas figuras que já foram povo há muito tempo.

Estratégica. Dilma escolheu Irecê para anunciar o reajuste do bolsa-família. Nas palavras da própria, 45 % de aumento para famílias com “grande número de filhos” – não definiu quantos – e algo menor para as demais. Ao todo, dois bilhões a mais de recursos para o programa. Dilma aprovou um aumento de salário mínimo ridículo dizendo que a despesa do Estado é muito onerosa. Porém, o bolsa-família, mistura de programa de renda mínima necessário em qualquer país civilizado com compra de votos oficial, esse injeta dinheiro na economia e faz o mercado se movimentar. O salário mínimo não! Dois pesos, duas medidas. Mas ela é esperta: afinal, aumentar salário mínimo não dá voto pra ninguém. E ela quer garantir seus votos para continuar dando esmolas aos pobres e garantindo grandes lucros aos ricos.

Segundo a presidenta, Irecê foi escolhida por que tem “muita bolsa-família”, mas “muito potencial em agricultura familiar”. Repetiu o lenga-lenga do ministro Afonso Florence, do governador Jacques Wagner e do prefeito Zé das Virgens. Baseado naquela lenda de que em Irecê existe uma “reforma agrária natural”. Ora, isso é um absurdo e só crê nisso quem não entende da realidade da região ou quem se beneficia com ela e pretende ocultar o conhecimento do concreto.

Uma “reforma agrária natural” é uma lenda que diz que na nossa região predomina a pequena propriedade baseada no trabalho familiar. Segundo a CAR, baseada em dados do IBGE, em 1995, as propriedades com mais de 10 hectares e com menos de 1.000 ocupavam 61 % das terras. Região destaque na produção de feijão, milho e mamona, era o maior produtor de grãos do Nordeste nos anos 1970, hoje exporta beterraba, cebola, banana, mamona, manga, pinha e possui destaque com uma pecuária de caprinos, ovinos, suínos e bovinos. Que orgulho: a pequena propriedade produzindo tanto.

Porém, analisando a economia agrícola dos anos 1910 dos Estados Unidos, o economista e líder russo Vladimir Lênin criticava a expressão “fundada no trabalho familiar”. A expressão “não possui qualquer sentido político-econômico, e induz indiretamente ao erro”. Afinal, o “trabalho familiar” existe em todos os tipos de economias, desde a moderna indústria de pequeno porte, passando pelo escravismo, feudalismo e comunitarismo primitivo. A expressão, porém, “contribui para confundir as mais diversas formas sociais da economia, beneficiando apenas a burguesia” por iludir “o público, levando-o a acreditar na não-existência de trabalho assalariado”.

Lênin também destaca que “a superfície está longe de indicar sempre e de uma forma direta a grandeza efetiva da exploração e seu caráter capitalista”. O tamanho da propriedade e a indicação de que existe uma região com “muito trabalho familiar” simplesmente por existir um grande número de pequenas propriedades é algo bastante relativo. O historiador baiano Erivaldo Neves destaca que no sertão do período colonial e imperial, propriedades com até 500 hectares podem ser consideradas pequenas, a depender da região e bastavam para assegurar a subsistência de uma família. Porém, com a conversão da agricultura camponesa em agricultura de mercado, a terra passa a representar apenas uma parte das condições de produção. Hoje, a região de Irecê possui uma poderosa pequena-burguesia composta por empresários rurais que investem grandes quantidades de capital – trabalho assalariado, máquinas, irrigação, adubos, pesticidas, assistência técnica, transporte – em unidades agrárias que não precisam necessariamente ser extensas. Muitos dos micro-proprietários necessitam vender sua força de trabalho como diaristas na própria região ou nos cafezais de Minas. Muitas vezes, para uma família camponesa conseguir sua subsistência do camponês é preciso somar o trabalho na roça, o serviço de alguns membros no serviço público local e de outros como assalariados em cidades distantes, uma aposentadoria e uma bolsa-família.

Dizer que existe uma “reforma agrária natural” – quando na verdade existe uma fragmentação fundiária e um grande número de empresas rurais intensivas – servem apenas para justificar a falta de uma política agrícola regional que beneficie os agricultores pobres, para não falar nos diaristas, nos meeiros e nos arrendatários, uma grande quantidade de trabalhadores rurais sem-terra. Pra quê microcrédito? Comercialização de produção eliminando atravessadores? Cooperativas de produção? Agroindústria? “Conversa de comunista”, diz o prefeito, o governado e a presidenta, “já foi feita a “reforma agrária de forma natural”.

Irecê sempre foi um lugar estratégico. Desde o século XVIII, a região possuía uma estrada que transportava gado do São Francisco, do Oeste, do Piauí e até mesmo de Goiás para Feira de Santana e Salvador. Durante a segunda metade do século XIX, abasteceu com farinha de mandioca, rapadura e outros produtos o lucrativo negócio de diamantes da Chapada Velha e, posteriormente, da Chapada Diamantina. No início do século XX, passou a exportar borracha (1904-1914), algodão e banha de porco (1920-1940), mamona e feijão (1948-1980), milho. Nela tentou-se instalar um foco de guerrilhas da esquerda armada no início dos anos 1970 pela Vanguarda Popular Revolucionária do capitão Carlos Lamarca. A partir daí, passou a receber grandes investimentos oriundos dos Estados Unidos – que serviam para infra-estrutura em estradas, energia elétrica, e, é claro, comprar tratores das multinacionais que destruíram a caatinga da região. Uma política de crédito agrícola para acalmar as populações potencialmente rebeldes e desassistidas pelo poder público criavam um setor agro-comercial poderoso na região que se associa a burocratas corruptos e mantém uma elite política regional com padrão de vida de país desenvolvido, enquanto a maioria da população vive na pobreza.

Alternativa? Somente a organização popular dos camponeses da região, junto aos trabalhadores urbanos, poderá realmente melhorar a vida do povo trabalhador. “De cima, só precisa esperar cacete”, conforme já diz Chico do Caldeirão. Serve para nós aquilo que Eduardo Galeano, escritor uruguaio disse sobre a América Latina: “Somos mendigos sentados sobre montanhas de ouro”. Até quando?

27 de fev. de 2011

PRESTANDO CONTA E LIGADO NA LUTA!!





O SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS DE UIBAÍ através de sua diretoria esteve nesse sábado na câmara de vereadores prestando conta do ano de 2010, se posicionou acerca de vários temas pertinentes á categoria, conclamou aos recém efetivados funcionários da prefeitura a se filiarem para q com isso a categoria seja fortalecida, se solidarizou aos profissionais da área de saúde q falaram da triste situação em relação a salários e condiçoes de trabalho entre outros problemas do setor, estimulou os sindicalizados a pensarem na eleição da diretoria em maio, alertando para a questão da renovação da mesma mas com a permanencia da luta, enfim, fez tudo aquilo q um sindicato pode e deve fazer qdo não é pelego e molenga...

20 de fev. de 2011

Olho d'água: onde nossa história começou














Fotos: Apresentação do Grupo de Teatro de Boca d'água em Quixabeira durante a Feira de Saúde (organizada pel Ceu de Fêra) e fotos dos arcos de Valdemar Araujo.



“Declaro que sou possuidor de um sítio denominado Olho d’água que comprei ao Coronel Ernesto Augusto da Rocha Medrado por UM CONTO E 200 mil réis o qual sítio possui duas léguas de largura, extremando pela parte do nascente no lugar Alto Grande confrontando com o Caldeirão da Gameleira, para o poente no desaguamento [Serra Azul, grifo meu] para o sul no Alto da Crus [não confundir com o atual povoado] e para o norte no Riacho do Meio.

Olho d’água 17 de abril de 1858. À rogo de Gonçalo José dos Santos. Padre Antonio Joaquim d’Abreu” (Registros Paroquiais de Terra. Xique-Xique. Fonte: Arquivo Público da Bahia)

Gonçalo José dos Santos aproveitou a vinda do padre e assim fez a declaração de sua propriedade. Infelizmente, não diz a data de sua compra, mas sabe-se que ocorreu na década de 1840, entre 1844-47 (Canabrava-Uibaí foi comprada ao mesmo Ernesto em 26/03/1847).

Com isso, Gonçalo não precisou de “procurador” nem de se deslocar até Xique-Xique e ali à frente do padre (responsável pelo recadastramento de terras) e assim ficar “quites” com as autoridades que vinham exigindo de quem tivesse terras “legais” que as declarassem sob pena de ficarem devolutas e assim arrumar problemas naquele momento e no futuro.

Gonçalo José dos Santos ao adquirir o sítio Olho d’água se torna o primeiro morador fixo da borda norte (lado de cá) na nossa querida Serra Azul. Ele que morava no Assuruá homenageou o lugar onde vivia, o Olho d’água de Joaquim dos Santos, depois Olho d’água do Cristal, hoje desabitado, num trecho do atual Gentio do Ouro, onde viviam índios tapuias mocoazes. Gonçalo era descendente deles pelo lado da mãe (filha de uma tapuia), já seu pai, tudo indica que fosse um ex-garimpeiro branco ou mestiço que se deu bem ao aventurar pelo Assuruá no início do século XIX quando vários garimpos de ouro explodiram na linda serra de nome tupi (ASSU = grande e RUÁ = serra).

O próprio Gonçalo, nas décadas de 1830 e 1840 ainda jovem (penso que ele nasceu entre 1820 e 1824) parece ter tirado a sorte grande na aurífera serrona. O cabôco teve como esposa a “mestiça” Raimunda Pereira Rosa, filha de um senhor chamado Faustino Rosa e de uma senhora, tudo indica, irmã de Venceslau Machado, fundador de Canabrava-Uibaí.

Naquele tempo, achar ouro era sinônimo de virar “fazendeiro” ou coisa parecida. O cabôco dos Santos, como muitos assuruaenses, não teve dúvidas, comprou caro, pois um conto e 200 mil réis equivalia a 120 cabeças de gado, de 12 a 15 burros cargueiros, o “trem” de maior valor na época depois de terra e gente escravizada, alguns quilos de ouro, dois a três escravizados jovens. Riacho d’Areia em 1854 custou menos da metade e mesmo assim se fosse hoje dava para comprar uma “railux” zero. Comprou também um bom pedaço de terra que misturava serra úmida (até hoje) com caatinga (área totalmente desvalorizada no período) e do seu arenoso-pedregoso Olho d’água do Assuruá veio com a família para o novo Olho d’água, na então “virgem” e promissora Serra Azul.

Além da mulher e talvez, um ou dois filhos, gado bovino, caprino e cavalar, é possível que tenha trazido um ou dois seres humanos escravizados. Era padrão na época: garimpar, bamburrar (achar “metal” e diamante), comprar gado e escravos, porém não ficou para a história nada que demonstrasse ou sugerisse que o cabôco cujos antepassados tapuias foram escravizados e praticamente dizimados pelos “brancos” e a “mestiça” Raimunda (provável neta de negra escravizada) tenham tido tais posses. No entanto, um filho deles, Tomás se casou com um moça cafuza chamada Manoela. Essa, tenho praticamente certeza que era a “cabrinha” (como consta nos documentos) Manoela, filha de Maria, uma africana que “pertencia” a Venceslau e, ao que parece, um filho dele.

Manoela nasce “escrava”, porém já adolescente foi viver com o marido no Olho d´água (Clarisse de João Brejeiro, sua bisneta, que a conheceu, a descreveu como “morenona”, grossona, bruta e de personalidade forte). Três filhos desses cafuzos-lusados (sangue luso, tapuia e africano) Bertolino Cabôco, Eugênio e Honório fundaram o povoado de Água Clara (de Presidente Dutra), os outros (foram mais de dez) deixaram muitos descendentes que antigamente eram conhecidos como os Cabôco da Água Clara e Cabôco do Olho d’água. Curioso é que o casal Gonçalo e Raimunda só tiveram filhos homens (Nicolau, Tomás, Manoel, Pedro, José, João e talvez Francisco) e com isso o sobrenome Alves Santos ainda é disseminado em Uibaí e P. Dutra.

Olho d’água/Boca d’água hoje é o maior povoado de Uibaí (cerca de mil habitantes), lugar bonito, atraente, com invejáveis recursos naturais. Está mais do que na hora de se pensar (sobretudo seu povo) em dar um novo salto e tornar-se vila-distrito. Que tal Vila Gonçalo?

Celito Regmendes. 11 de janeiro de 2011.


Publicado em "A Indaga", número 05, ano III

Como cães e gatos


A
política de Uibaí já foi de cobras e lagartos. Farpas, brigas de rua, tiroteios, fogos de artifício em cima das casas de adversários, polícia, fórum e juiz. Tudo isso parece que ficou para trás. Não se sabe até quando, mas agora a política de Uibaí é de cães e gatos. Cães fiéis, adestrados, com uma língua de fora, sem dentes. Gatos ladinos, espertos, sorrateiros, traiçoeiros, mas sutis.
A eleição da Câmara foi isso. Os partidários mais próximos a Pedro Rocha batizam a eleição de Davi para a presidência como traição. O nome mais bonito que Dóris, por ser presidente do PT e ter se coligado com Marcão e Edson Filho para derrotar a candidatura de Tarcísio para presidente da casa, foi Judas Iscariotes. Mas como nessa história não tem nenhum Jesus e tem muitas moedas de prata, resta perguntar: por quê o racha interno no governo?
Obra de Birinha? O mesmo poderia ter soltado fogos e assumido a articulação da eleição. Afinal, seria dizer: disseram que eu acabei quando perdi o apoio de Hamilton e Armênia, pois olha aí, elegi o presidente da Câmara. Mas, ao contrário, seus partidários negam o envolvimento do mesmo na eleição. Quem mais diz que Birinha está envolvido são os seus recentes correligionários, Luís e Armênia, agora dois fiéis vereadores da base de Pedro. A eles, derrotados, desalojados da mesa diretora, interessa associar a atual presidência ao principal adversário do prefeito. Afinal, se Doris e Davi perderem espaço dentro da prefeitura, eles podem ocupar as vagas. Edson Filho, Dindo e Marcão se interessam em compor a mesa diretora por terem perdido espaço na gestão de Luís que monopolizou os recursos da Câmara e fez uma presidência autoritária, perseguindo servidores e até com os próprios vereadores da mesa. Esses três estariam interessados mais na derrota de Luís dentro da Câmara do que na vitória de Birinha fora dela.
E os Judas da história? Doris e Davi? Traíram Pedro Rocha e foram comprados por Birinha? Parece simples demais. Ninguém abandona o barco andando. Os dois primeiros anos de governo foram muito mais difíceis e muito mais propícios para um afastamento do PT. Logo agora, que o governo de Pedro está acertando, faz sentido sair? Para quê? Apoiar um grupo moribundo que agoniza na UTI? Afinal de contas, o atual prefeito tem ligação forte com 2 deputados federais, um ministro de Estado – Afonso Florence, de Morro do Chapéu, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (aquele que se elegeu com as casas populares) – dois deputados estaduais, um governador e uma presidente. E à oposição carlista, que resta? Ligações pessoais com o vice-governador, um deputado estadual e um federal, todos da base de apoio dos governos do PT.
Nos discursos, em tom de defensiva, Davi e Dóris falaram em autonomia da Câmara, elogiaram Tarcísio, elogiaram Luís – o mesmo que foi contra o projeto de lei de assistência estudantil em 2005, perseguiu servidores, mudou de bancada, um camaleão – e disseram que ajudaram o governo Pedro Rocha. Na rádio, Davi falou abertamente que Dindo, vereador da base aliada do governo do PT, propôs uma chapa e articulou a eleição. Ou seja, tivemos uma eleição em que duas chapas queriam mostrar qual era a mais governista.
Pedro Rocha ganha e perde. Ganha porque Davi e Dóris perceberam que ele está com a bola toda com o povão e que se afastar dele pode ser perigoso. Daí se colocarem a favor dele, mesmo sendo contra ele em algumas coisas. Mas o prefeito perde. Mostra que não conseguiu eleger a sua chapa para presidência, que não sabe articular bem sua base legislativa, que foi bom em enfraquecer seus adversários, mas é ruim em agradar seus apoiadores.
Davi e Dóris ganham e perdem. Ganham porque têm uma poderosa máquina na mão. Mas perdem por associarem, junto às bases governistas, seus nomes com os de Marcão e Edson Filho, vistos como fiéis escudeiros de Birinha. Ganham o apelido de traidores do prefeito. Eles, que são do mesmo grupo desde os anos 1980, viram o sonho de governo realizado se desmoronar e perderam cada vez mais espaço para Dorival, Luís e Hamilton, inimigos históricos.
Por questões internas da Câmara, Dindo, Edson e Marcão, para derrubar Luís, se aliaram contra ele. Por questões internas da prefeitura, Dóris e Davi quiseram mostrar independência frente ao autoritarismo e arrogância de Pedro Rocha e se queimaram em suas bases fazendo alianças com adversários de ontem, contra aliados de sempre. Por questões internas do partido, Dóris perde espaço no PT uibaiense e vai dever explicações ao partido estadual por que não votou numa chapa presidida pelo PT e sim numa do PDT. Por questões de sobrevida política, Armênia, Dorim, ops, Viviane e Luís se mostraram fiéis a Pedro Rocha e, se perderem espaço dentro da Câmara, vão querer compensar dentro da prefeitura. Por questões internas nas bases petistas, Tarcísio se fortalece, não mais por ser crítico, amigo da verdade, inimigo da corrupção e incorruptível, mas por ser fiel, leal, mesmo com a certeza da derrota.

13 de fev. de 2011

"Da luta não me retiro"


Tivemos uns dias de "férias". Limpamos a casa, reagrupamos o povo, recomeçamos o trabalho. Sempre combinando o "otimismo da vontade" com o "pessimismo da inteligência".
Circulamos em Uibaí a nova (número 5) edição impressa do informativo A Indaga. Publicaremos paulatinamente as matérias do mesmo.
Aguardamos sugestões, críticas e contribuições dos nossos leitores para que 2011 seja mais democrático, mais plural, mais solidário e menos ignorante.
"Só a experiência é capaz de corrigir e de abrir novos caminhos" Rosa Luxemburgo (1871-1918)

9 de dez. de 2010

Os dezembristas


Estamos chegando ao fim do ano e Uibaí vai entrar na fase das visitas de seus filhos que nasceram no pé-de-serra, mas foram chutados pela estagnação econômica ou pelo monopólio político de 5 ou 6 famílias sobre os poderes. Também chegam aqueles que são adotados: filhos ou casados com uibaienses, de outras terras, mas que adotam o lugar como um símbolo de status. Do dia 15 de dezembro até princípio de janeiro, vai ter gente estranha na rua (aos olhos dos uibaienses que moram em Uibaí desde sempre): uns até que ninguém nunca viu nem na feira.

Mas qual a razão de tanto amor e tanto bairrismo? Ora, o ser humano até se acha muito iluminado, mas em muita coisa não é diferente dos resto dos bichinhos da natureza. Somos territorialistas por natureza. Dá pra dizer, sem medo de ser feliz, que a grande maioria das pessoas não quer sair de sua terra. São poucos os ousados que buscam as luzes da cidade grande: a maioria queria viver em paz na sua terra com sua gente. Mas não pode! A região oferece muito pouco ainda em educação, em emprego, em salário, em lazer. Os que conseguem ficar o fazem com muita força de vontade e alguma sorte ou outros fatores. Quem quiser que se pique! Sertão: deixe-o. Não tem lugar pra todo mundo.

Mas se somos bichos como outros, uma coisa nos diferencia da galinha, das perdiz e do anda-só. O ser humano significa as coisas. E orienta sua vida com base nos significados que vai criando. Uibaí não é só uma "cidadezinha qualquer". Tornou-se um símbolo de status: afinal, somos reconhecidos e nos orgulhamos de nossa inteletualidade sertaneja, de nosso "folclore", de nosso pitoresco, de nossas peculiaridades.

Quando saímos, levamos tanto chute por pobreza, por cor de pele e cabelos, sotaque, origem geográfica. Se for na Salvador, cidade de desigualdade gritante onde há castelos cercados por montanhas de miséria, somos do "interior". A maravilhosa e pacífica Rio de Janeiro: paraíba. A ordenada e metropolitana São Paulo: baiano. As provincianas Feira de Santana, Vitória da Conquista: pernambucanos?

A saída? Passar a chiar igual a um "rádio velho", na ironia dos nossos irmãos que satirizam os que não mantém suas raízes sociolinguísticas. Passar um mês em Salvador e voltar dizendo "mainha, painho, abará, vatapá, barriô". Em São Paulo: "o" José tá adoóórando lá. Em Feira: Poooorra, man, o barrio é pobrema. Para não ser desprezado por um esteriótipo, adota-se outro.

Ou então, bicho, resignifica-se a coisa. Vira a mesa. Nascer em Uibaí, no Sertão, torna-se um símbolo de orgulho. Ser uibaiense é sinônimo de ser privilegiado. E aí, dá-lhe coisas boas: água da formosa, estaladinho, Fonte Grande, doce de leite com rapadura, etc. O que tem de uibaiense que caiu na diáspora e quando volta descobre, atônito: "que Serra filé, morô, quero conhecer". Em geral, aguenta um Peixe ou um Riacho do Meio. Uma subida de Serra dos Bois ou de Sete Voltas não é pra qualquer sertanejo que se perder na diáspora. Mais cômodo é acomodar-se num boteco e dar a falar de como o povo é inteligente, criativo, universitário, estudioso. De fato, é inegável que exportamos mão-de-obra assalariada com muita qualificação. E sem qualificação também. Produzimos o exército de reserva. E quase mais nada.

Amor interessante esse. Fazer o quê: deve ser o andú.

5 de dez. de 2010

Coronelismo, tráfico de drogas e preconceito regional?






















Acima: Fernandinho Beira-Mar, símbolo do tráfico de drogas nas favelas cariocas e Horácio de Matos no famoso Convênio de Lençóis, em 1920, maior representativo do coronelismo na Chapada Diamantina.


Quando se quer esteriotipar o nordestino, sobretudo o sertanejo, sem querer usar argumentos racistas - "cabeça chata", quase que por natureza "raquítico" e "pequeno" - e até passar por dono de um discurso sociológico, nada melhor do que apelar para o "coronelismo". Afinal, essa prática de chefes locais ultrapoderosos, donos de tudo e de todos, usuários de práticas clientelistas, mandonistas, até mesmo de grupos paramilitares, são uma vergonha, uma mancha na história do país que teria, supostamente, sobrevivido até hoje nos "grotões": pode ser uma boa Bahia - dá-lhe ACM - um Ceará, um Pernambuco, mas serve também para um Mato Grosso, um Goiás e um Amapá, afinal, é tudo fora do Sul-Sudeste, mesmo.
Curiosamente, quando vamos analisar com mais precisão os argumentos do "coronelismo", próprios de cidades de interior atrasadas, em especial, as nordestinas, vemos que o conceito não se sustenta. Coronelismo moderno é um termo que serve para tudo e para todos. Um termo vago, sem sentido algum, que é ótimo, todavia, para fundamentar um discurso pobre em análise de realidade, mas bastante eficaz, quando se quer taxar o adversário de sinônimo de atraso, autoritarismo, arrogância, perseguição, violência.
Vamos às matrizes teóricas e não conseguimos ver grande coisa também. Victor Nunes Leal, um jurista carregado de preconceito, generaliza uma análise institucional de meia-dúzia de leis, mistura com sua experiência de juiz no interior de São Paulo e propõe a ideia de um sistema coronelista que é uma anomalia social e paradoxal, pois é a sobrevivência do atraso.

A tentativa de dar criticidade ao conceito de coronelismo feita por outros cientistas sociais como Maria Isaura Pereira de Queiroz, José de Souza Martins e Eul-Soo Pang fracassa: sempre o coronelismo é um sistema homogeneo que inclui tanto o coronel-bacharel que pratica a eleição no voto de cabresto, quanto o coronel0-jagunço que simplesmente falsificava as atas eleitorais em eleições de bico-de-pena e decidiam as suas rixas políticas na boca do papo-amarelo - o apelido carinhoso de alguns rifles de repetição.

E mais curioso ainda é associar práticas tradicionalmente "coronelistas" como típicas de "grotões" do interior, como a Chapada Diamantina e o São Francisco, berço de ilustres coronéis, conhecidos internacionalmente, como Franklin Lins de Albuquerque, Horácio de Matos e Marcionilio José de Souza. Porém, algumas coisas muito semelhantes, como as organizações criminosas de favelados no Rio de Janeiro, são coisas muito, mas muito modernas, representando um defeito do que há de mais moderno. Quando observamos, porém, algumas características, será que são tão diferentes assim?

Manutenção do poder com base na força paramilitar, conflito com o Estado, construção de um poder paralelo, opressão da população, perseguição, uso da violência... Será que quando isso acontece no Nordeste é coronelismo e quando acontece no Rio de Janeiro é crime organizado? Um atrasado e outro moderno? ambos negativos. Faz lembrar a crítica feita nos meios internéticos à análise dos jornalistas da mídia sobre o deputado federal mais votado do Brasil: Tiririca. De acordo com os críticos, se fosse em algum Estado do norte-nordeste, seria "manifestação do atraso, da burrice e da ignorância" do povo nordestino. Mas como é São Paulo, é "voto de protesto".

Nordeste e Sudeste produzem juntos uma política muito semelhante. Basta ver que, desde o fim da ditadura, a maioria dos presidentes foram nordestinos - Sarney do Maranhão, Collor de Alagoas, Lula de Pernambuco - mas tinham poderosas bases de poder no Sudeste. A diferença é que no Sudeste, a construção da identidade de "moderno", "dinâmico" e "trabalhador" passa pelo discurso de alteridade e negação do outro, o nordestino, que seria o "atrasado", o "ignorante", o "preguiçoso".