25 de mar. de 2011

A agonia da Serra Azul


Acima: Barragem Manoel Novaes (Mirorós) e queimada no Brejinho.

Quem quiser pagar o preço de andar por uma hora pisando a areia solta da serra poderá assistir ao último grande espetáculo exibido no teatro de horrores em que se tornou a Serra Azul. Se você for lá, assistirá ao último ato produzido pela inteligência e a racionalidade humana. Aqui há um milhão de árvores queimadas, pensei assim que vi a paisagem. Mas não se pode fazer uma estimativa razoável, pois grande quantidade delas desapareceu no ar em forma de cinzas. O fogo as consumiu até o nível do solo abrindo grandes clareiras. Dá pra ver árvores inteiras desenhadas na areia pelas cinzas de seus galhos. Você pode ver também uma árvore de cinco metros derretendo na areia quente – os cactos, pela grande quantidade de líquidos na sua estrutura, não se incineram, derretem lentamente.

Pode ainda andar por muito tempo entre as árvores carbonizadas que agora compõem a silenciosa floresta de carvão que margeia o lado norte do vale por onde corre o Riacho do Brejinho. Quero lembrar que o Riacho do Brejinho deságua no Rio verde que é afluente do rio São Francisco. Esta queimada aconteceu durante o período de reprodução de muitos pássaros que ainda sobrevivem na Serra Azul. Então, foi impossível não imaginar a agonia dos filhotes de aves sendo assados vivos sem a menor chance de defesa. Mas não foram só eles que pagaram com a vida. Numa queimada assim milhares de pequenos animais são queimados vivos, sem falar nos milhões de insetos. Todos fundamentais para ploriferação e manutenção das espécies vegetais ali existentes.

Segundo proprietários de roças no trecho, a área queimada é de aproximadamente duzentas tarefas, pequena se comparada à maior já feita na serra, que em 2008 queimou desde a Chapada até a Água Quente, podendo ter passado dos cem quilômetros quadrados. Antes que eu me esqueça: o motivo nobre do espetáculo foi a preparação de uma área de cerca de quatro tarefas para pastagem e criação de gado. O mandante recusou-se a pagar para fazer o acero - que evita o alastramento do fogo.

Uibaí já foi considerada a cidade mais rica em água doce da região de Irecê. Fornecia água para o desenvolvimento de Irecê e outras cidades do entorno. Foi ainda a primeira cidade de toda a região a dispor de água tratada, isto na década de cinqüenta. Mas não soube e nem quis preservar esta riqueza. A década de noventa marcou o início da agonia da Serra Azul e, por conseqüência, da população da cidade de Uibaí no período das chuvas, embora raramente se estabeleça esta relação. Enquanto a serra agonizava com os desmatamentos que se alastravam dentro da bacia do Riacho Canabrava, a população agonizava com a falta de água decorrente do aterramento da barragem e entupimento das tubulações pela areia e lama trazidas pelas chuvas das áreas desmatadas.

Quando no ano de 2000 a água de Mirorós chegou a Uibaí acabando com o sofrimento do desabastecimento no período das chuvas, todos pensaram que havia chegado a solução definitiva para o problema da falta d’água. Porem, antes mesmo que acabasse a década, o seria solução definitiva revelou-se nada mais que o mensageiro de uma tragédia muito maior: o sistema de Mirorós está entrando num colapso aparentemente irreversível. As causas deste colapso? Desmatamentos dentro da bacia do Rio Verde, o que levou a drástica redução da vazão dos córregos que alimentam o rio. Desmatamentos como aquele do Brejinho.

A CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do São Francisco), proprietária da barragem de Mirorós e administradora do sistema tentou priorizar o abastecimento humano eliminando o fornecimento da água para uso agrícola no Projeto de Irrigação de Mirorós, que consome a maior parte de toda a água da Barragem. Os empresários e irrigantes do projeto reagiram violentamente ameaçando explodir a barragem. A CODEVASF recuou. As ameaças continuam, agora mais realistas, voltadas para a adutora do feijão que distribui toda a água da região.

Será que a guerra pela água, anunciada por muitos cientistas políticos como a mais importante do século 21, está chegando pra nós? Neste cenário de ameaças a nova promessa de solução definitiva vem do Rio São Francisco. A adutora que trará suas águas para abastecer Irecê e grande parte da região está iniciada e parada, sem recursos para continuar. Então haverá tempo para que ela seja concluída antes do colapso total de Mirorós? E quando ela estiver pronta, por quanto tempo o Rio São Francisco poderá nos abastecer?

Um dia o Rio Verde foi solução definitiva para o povo de Uibaí, agora o Rio São Francisco é prometido como a solução definitiva para o povo da região de Irecê. É bom saber que toda a bacia do São Francisco está sendo arrebentada como foi o Rio Verde e o Riacho Canabrava. Inclusive, só pra que você não se esqueça, a queimada do Brejinho está dentro da sub-bacia do São Francisco e de lá se pode ver a barragem de Mirorós, a ex-solução definitiva para nós.

Publicado em A Indaga, número 5 de fevereiro de 2011

24 de mar. de 2011

A biblioteca


Não há muito tempo, neste mesmo jornal apareceu um texto versando sobre um assunto que eu sempre soube que não seria lido com a mesma atenção que outros mais amplamente debatidos no cotidiano da maioria das pessoas. Seria muita ingenuidade pensar que tão logo um mísero texto pudesse reavivar um valor há tanto tempo obscurecido, uma prática há tanto tempo abandonada, um ambiente há muito esquecido. À biblioteca falta muito ainda para ser tema de discussão acirrada no nosso município, por mais que aqui haja professores, alunos, autodidatas, ou simplesmente pessoas que encontram no livro um expediente de divertimento e de prazer. Parafraseando o que já disse Lacan sobre as mulheres: A biblioteca não existe!. Não é visitada, não é discutida, não é respeitada. Não querem saber dela o poder público, os estudantes a ignoram, os munícipes de um modo geral a desprezam. Como não? Não é por acaso que as coisas só têm o valor que nós damos a elas, não o damos e as coisas não valem nada.

Eu acho interessante falar sobre o assunto, isso é óbvio, pois senão não estariam lendo uma reminiscência de outro texto sobre o mesmo tema. O mais instigante é que a biblioteca que com ela agrega outros valores para a sua discussão como cultura, leitura, intelectualidade e saber, é aquele tipo de assunto que ninguém com algum juízo, pode “fazer pouco” numa conversa, ninguém em sã consciência chamaria de estupor, de bestagem a idéia de alguém sobre o assunto em público, no entanto é aquele tipo de assunto que as pessoas torcem na verdade para que ninguém toque, que ninguém se refira, que fique ali quieto, escondido. Quem ousa falar, mesmo que sob olhares de ódio encarnado, não ouve senão palavras de referência e grandiloquência sobre o quão importante, aliás, mais que importante, essencial para a vida humana, de homens racionais e inteligentes, de cidadãos conscientes, portanto. “Essencial”! “É preciso fazer algo.” “Uibaí, terra de gente inteligente, não pode viver uma situação assim” são expressões que provavelmente se ouve com facilidade. Balela.

Soube eu que a repercussão do outro texto gerou da boca de pessoas ligadas diretamente ao órgão do poder público responsável pela sua manutenção senão frases como essas algumas equivalentes em sentido, mas e aí? Será que muitas das reivindicações e questionamentos feitos no outro texto ainda são válidos hoje? Seriam, pois, mais válidos ainda? Teria inacreditavelmente piorado a situação deplorável do trato com os livros, da importância da leitura (tanto e tanto bradada da boca pra fora nos corredores das escolas), da situação desse ambiente que além de fundamental é simbólico na história de seres pensantes? Claro que sim. Difícil de admitir, mas, piorou, piorou por que não adianta o que se diga ou prometa, tudo permanece como antes, e, aqui vou eu reavivar a velha ladainha do outro texto: Uibaí tem uma biblioteca municipal de dar vergonha a qualquer gestor, cidadão ou estudante. As bibliotecas escolares não recebem nem a infinitésima parte da importância devida para a sua relevância na formação dos alunos. Quem se importa com os acervos tem desgosto de ver de perto os empréstimos feitos sem nenhum critério, o cuidado (a falta dele) com armazenamento e organização que faz parte da prática comum das escolas. E reforço: em Uibaí, as pessoas selecionadas para trabalhar nas bibliotecas passam por um que se não irreal é um critério muito negligente. Descrevamos isso por partes: O ideal seria o que todos sabemos ser muito difícil, ou seja, alguém formado em biblioteconomia, que tem o conhecimento necessário da prática de cuidado, organização, catalogação dos livros e outros tipos de impressos. Não, não é alguém assim, pois além da formação ser pouco comum na nossa região seria praticamente um exagero pedir isso para cada biblioteca escolar. Então vamos adiante, que fosse alguém que tem um interesse claro pelo assunto, aquele que mesmo sem a formação adequada conhece e visivelmente faria um bom trabalho por ter real consciência da importância dele, uma pessoa assim precisaria no máximo de uma formação técnica que poderia ser provida pela prefeitura para conhecer os parâmetros técnicos básicos de organização, cuidado e manejo de software específico para a área. Mas, hum... também não é alguém assim que trabalha nesses ambientes e é aí que chegamos ao critério. Bingo!! O critério é que não há critério. Sem querer desmerecer as capacidade de quem hoje ocupa esses cargos, mas minha crítica se dirige para quem escolhe, quem tem a possibilidade de contratar que é o PODER PÚBLICO. Se contratam um coveiro prum cargo de médico de quem é a culpa? dele que quer ter um emprego, sustentar a família ou da administração que deveria zelar para que as pessoas tivessem bons médicos e boa saúde?, mas isso é real, dá pra acreditar? Pois acredite meu caro leitor, e sabe onde isso acontece? Naquele município do pé da serra tão apregoado por aí como terra de “gente inteligente”, de gente que passa em concursos, terra de gente que engrossa as listas de aprovados nos vestibulares nas melhores posições por todo o país. Acredite, por mais absurdo que seja, é aqui.

Se querem saber realmente, eu digo sem pesar que o que eu gostaria mesmo de presenciar é utópico, para expressar isso faço minhas a palavras de eco, pois o que eu queria era que

Se a biblioteca é, como pretende Borges, um modelo do Universo, tentemos transformá-la num universo à medida do homem e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem num maple(banco de madeira) e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu flirt (tempo livre de lazer) na biblioteca, enquanto retiram ou voltam a pôr nas estantes alguns livros de interesse científico, isto é, uma biblioteca onde apeteça ir, e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina de tempos livres. (ECO, 1987)

Mas será que vendo toda a dificuldade de tornar esse sonho real, seria exagero querer que não seja ela a marca mais cálida do abandono e do descaso numa cidade tão cheia de pompa, por ser referência em conhecimento e inteligência?

Pensemos nisso.

20 de mar. de 2011

Abaixo-assinado Libertação imediata dos 13 presos políticos, que protestavam contra a visita de Barack Obama ao Brasil.



Para:Sec. de Segurança; Sec. da Presidente da República; Sec. do Sérgio Cabral

Nós abaixo assinados protestamos contra a prisão de 13 ativistas que participavam de uma manifestação pacífica contra a visita de Barack Obama ao país. A existência de presos políticos é um claro atentado contra as liberdades democráticas no país. Exigimos a libertação imediata e a revogação de todas as acusações.

Lista dos presos:

Gilberto Silva - eletricista
Rafael Rossi - professor de estado, dirigente sindical do SEPE
Pâmela Rossi - professora do estado e casada
Thiago Loureiro - estudante de Direito da UFRJ, funcionário do Sindjustiça
Yuri Proença da Costa - carteiro dos Correios
Gualberto Tinoco - servidor do estado e dirigente sindical do SEPE
Gabriela Proença da Costa - estudante de Artes da UERJ
Gabriel de Melo Souza Paulo - estudante de Letras da UFRJ, DCE UFRJ
José Eduardo BRAUNSCHWEIGER - advogado
Andriev Martins Santos - estudante UFF
João Paulo - estudante Colégio Pedro II
Vagner Vasconcelos - Movimento MV Brasil
Maria de Lurdes Pereira da Silva - doméstica


Os signatários

a indaga faz ENQUETE , veja, vote!

a indaga-mvive tá com uma enquete na área, lá embaixo, leia e caso queira, deixe seu voto!!

19 de mar. de 2011

"O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama"

Entrevista Tariq Ali (FRAGMENTO tirado do site da revista "caros amigos "por celito regmendes):

"O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama"

Por Tatiana Merlino PARA SITE DA CAROS AMIGOS

Enganaram-se aqueles que acreditaram que Obama representaria uma mudança na política interna e externa da principal economia do mundo. “Muitas pessoas acreditaram em Obama e se esqueceram que ele levantou mais dinheiro de Wall Street do que Hillary Clinton e John McCain juntos. O banco Goldman Sachs e muitos outros deram-lhe milhões”, afirma Tariq Ali, escritor e historiador de origem paquistanesa e radicado na Inglaterra. Ali, que está entre um dos mais respeitados intelectuais de esquerda, lançou, recentemente, o livro The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad (A síndrome de Obama: capitulação em casa, guerra fora), ainda sem previsão para publicação em português. Na obra, Tariq Ali analisa os primeiros 18 meses do presidente, que define como um “político-máquina do Partido Democrata em Chicago”.

Nesta entrevista, o historiador também discute a relação dos Estados Unidos com o Paquistão, país que, segundo ele, está sendo usado pelos interesses estadunidenses na guerra do Afeganistão( OBS: NÃO COLOQUEI ESSA PARTE DA ENTREVISTA, CASO QUEIRAM, COLOCO-celito regmendes). “Muitos dos terroristas de hoje foram treinados nos Estados Unidos, onde aprenderam como atirar em helicópteros. Hoje é altamente irônico que eles estejam fazendo isso contra os Estados Unidos”.

Tariq Ali ainda analisa a crise financeira mundial de 2008, que, define como a mais séria crise do capitalismo desde 1929. Sobre o processo eleitoral brasileiro, Tariq Ali, bastante crítico ao governo Lula, disse que ficou feliz por José Serra ter sido derrotado nas urnas, mas quando viu a presidente eleita numa foto com Antonio Palocci (que será o ministro da Casa Civil de Dilma) pensou “ai, meu deus... Esse cara é o mais articulado defensor de políticas econômicas neoliberais e o país não precisa de pessoas como ele, mas sim de pessoas que pensem diferente”.

Caros Amigos - Queria começar por seu último livro: “A Síndrome de Obama: Capitulação em casa, Guerra fora”. O que aconteceu, por que Obama está rendido em casa, foi uma cilada?

Tariq Ali - Não, não é uma cilada. Basicamente é importante entender que Obama é, essencialmente, um político-máquina, da máquina do Partido Democrata em Chicago. Um dos piores do país. No meu livro sobre Obama eu o descrevo como a aparição mais inventiva que o império criou de si mesmo. O império americano precisava de Obama, desesperadamente. Muitas pessoas assumiram, automaticamente, que Obama seria melhor do que Bush. Não apenas nos Estados Unidos. No mundo inteiro. Eles tinham ilusões reais. Até pessoas de esquerda, até o lideres bolivarianos, como Hugo Chávez. Eles tinham verdadeira esperança, não ilusões. Lula realmente acreditou quando Obama disse “sim, intervenha em nosso nome com o Irã”. Não é que Lula foi como a imprensa disse: “ele foi ingênuo”. Não é uma questão de ingenuidade. Obama disse ao Lula e para o líder turco, “por favor, nos ajude com o Irã”, e eles o fizeram. Eles conseguiram que os iranianos concordassem com o plano, e então os americanos recuaram.

Muitas pessoas acreditaram em Obama e se esqueceram que ele levantou mais dinheiro de Wall Street do que Hillary Clinton e John McCain juntos. O Goldman Sachs e muitos outros deram-lhe milhões. Eles não iam tocar um música que Wall Street não gostasse. Isso era óbvio. As pessoas achavam que as reformas da saúde seriam reformas de verdade, que haveria serviço de saúde de verdade, como há na Europa. Eles subestimaram o lobby da indústria farmacêutica e das empresas de plano de saúde e asseguraram que as reformas estavam sob seu controle. Então, quando houve as pressões das corporações nos Estados Unidos, Obama capitulou. Fora do país, houve guerra, como usualmente. Mas, internamente, mesmo com promessas que não tem nada a ver com as corporações, como “iremos fechar Guantánamo”, não se fez nada.

Com o que se prometeu de “iremos acabar com tortura, rendições”, também nada. O chefe da CIA, Leon Panetta, foi questionado sobre as torturas, e nada ocorreu. Então, o desapontamento entre seus próprios apoiadores nos EUA é muito alto. Eu estava nos Estados Unidos durante a campanha de Obama, e não há dúvida que entre as idades de 18 e 26, uma quantidade enorme de jovens se mobilizaram por ele. Então, essas são as pessoas mais desapontadas com Obama nos EUA.

Caros Amigos - Quais são as consequências desse desapontamento?

Nas eleições de meio mandato, muitos dos apoiadores de Obama não votaram, eles ficaram em casa. Então, os republicamos ganharam a Câmara dos Representantes, com uma maioria enorme, e no Senado, teve uma pequena maioria para o Obama, mas eles perderam. E se continuar assim, é uma pergunta em aberto o que irá acontecer em 2012. Não que isso importe, pois o sistema é tão forte agora, que é necessário ser um presidente muito corajoso e confiante para mudar isso, mesmo que pouco.

2 de mar. de 2011

Por uma política agrícola municipal


Uibaí é um município agrário: nasceu, creceu e existe em função do trabalho na terra. Curiosamente, quando se fala em política municipal, se esquece disso. Agricultura: coisa nobre, dizem os políticos. Pronto. Nada mais.

A economia regional, embora tenha desenvolvido um poderoso setor de serviços, é essencialmente agrária.Isso deveria ser motivo para a existência de uma séria política agrícola. Das áreas da educação e da saúde pode-se dizer que as coisas não vão bem, mas que há uma tentativa de se fazer alguma coisa, ainda que haja erros e coisas do gênero, mas na agricultura a coisa não anda nada, absolutamente nada.

A Secretaria de Educação do município compra produtos das mãos de agricultores familiares para colocar na merenda escolar; a Secretaria de Obras e Infra-Estrutura faz uma estrada ligando o povoado da Quixabeira ao povoado do Caldeirão, bem assim, faz uma estrada na serra para escoar a produção dos trabalhadores das roças da serra e tenta reformar outras estradas. O beneficiamento do leite e a introdução do queijo na merenda escolar são iniciativas importantes. Dentro da Ação Social, ocorrem capacitações para beneficiamento de produtos locais e estímulo ao cooperativismo. Então, até agora, apenas estas três ações ligadas à agricultura podem ser apontadas, e na realidade nenhuma dessas ações pode ser atribuída à Secretaria de Agricultura ou à tentativa do poder público municipal de construir uma política pública de agricultura.

Infelizmente, a nossa querida Uibaí padece de política agrícola: não há política de assistência técnica rural, não há política de financiamento agrícola, nem de escoamento, comercialização e distribuição da produção, não há política de controle de preços e de segurança alimentar, nemnão há política de beneficiamento e agregação de valor à produção agrícola, nem política de fortalecimento da agricultura familiar e de revitalização dos recursos hídricos. Em agricultura, não há nada a nível municipal, senão a atuação desorganizada e sem planejamento da administração municipal. Ações isoladas, sem um norte. É preciso generalizar o que é interessante. política municipal de distribuição de sementes e manutenção da diversidade genética,

Muito se tem dito sobre a estrada da serra. Em especial, que foi uma ação do poder público em atenção à demanda histórica desse segmento de trabalhadores do município que, historicamente, sempre foi excluído. Motivação eleitoreira: obra feita às pressas na véspera da eleição para deputado, com o trabalho dos serranos e apoio da prefeitura. De fato, os trabalhadores e as trabalhadoras da serra merecem atenção e respeito. Portanto, merecem uma política pública agrícola que dê das necessidades de todos os trabalhadores e trabalhadoras rurais deste município. Mas o que se vê é uma obra solta e perdida, que busca preencher o vazio da falta de política agrícola.

É preciso defender que a Secretaria de Agricultura não seja um prêmio de consolação para um aliado que é visto como adversário interno no governo. É preciso defender que essas ações isoladas que beneficiam camponeses aqui e acolá estejam integrados num projeto de médio prazo que atenda a todo o município. É preciso que haja um corpo técnico municipal composto de servidores – técnicos agrícolas, zootécnicos, agrônomos, veterinários, etc. – para que o município possa oferecer assistência técnica. É preciso pesquisar as potencialidades econômicas da nossa região e as fragilidades do bioma catinga de modo a preservá-lo para que se possa extrair a subsistência durante o futuro. É preciso escolher um secretário de agricultura que tenha legitimidade junto aos trabalhadores rurais.

Defendemos:

ü Escolha democrática e coerente do secretário de agricultura;

ü Concurso para corpo de assistência técnica agrária no município;

ü Generalização de ações interessantes como o beneficiamento da produção local e estímulo e capacitação para cooperativismo e associativismo;

Criação de um projeto agrário para o município com participação popular.

Dilma em Irecê: decepção e reflexão





A visita da presidenta da República Dilma Roussef em Irecê no dia primeiro de fevereiro foi decepcionante, estratégica e deve servir de reflexão sobre qual região queremos.

Decepção. Caravanas de vários municípios da região alugaram carros, vans, ônibus. Trabalhadores pegaram suas motos e veículos e se deslocaram para a capital da região para ver a mulher mais poderosa do mundo cara a cara. Alguns por admiração, outros por ligação política, outros porque queriam ver uma celebridade. A grande maioria teve que se contentar com um aceno rápido de mão e um sorriso. Além, é claro, do telão que foi instalado para que o “povão” assistisse. O local onde ocorreu o evento, o Granfest, é minúsculo para receber um presidente da república. A presidenta ficou lá dentro, com os “escolhidos”. Afinal, era preciso ser “credenciado” para entrar. Sinal dos tempos que virão: para o povo, o aceno de longe e um telão. Pessoalmente, só alguns, autoridades, dirigentes de movimentos sociais alinhados ao governo, políticos, empresários e algumas figuras que já foram povo há muito tempo.

Estratégica. Dilma escolheu Irecê para anunciar o reajuste do bolsa-família. Nas palavras da própria, 45 % de aumento para famílias com “grande número de filhos” – não definiu quantos – e algo menor para as demais. Ao todo, dois bilhões a mais de recursos para o programa. Dilma aprovou um aumento de salário mínimo ridículo dizendo que a despesa do Estado é muito onerosa. Porém, o bolsa-família, mistura de programa de renda mínima necessário em qualquer país civilizado com compra de votos oficial, esse injeta dinheiro na economia e faz o mercado se movimentar. O salário mínimo não! Dois pesos, duas medidas. Mas ela é esperta: afinal, aumentar salário mínimo não dá voto pra ninguém. E ela quer garantir seus votos para continuar dando esmolas aos pobres e garantindo grandes lucros aos ricos.

Segundo a presidenta, Irecê foi escolhida por que tem “muita bolsa-família”, mas “muito potencial em agricultura familiar”. Repetiu o lenga-lenga do ministro Afonso Florence, do governador Jacques Wagner e do prefeito Zé das Virgens. Baseado naquela lenda de que em Irecê existe uma “reforma agrária natural”. Ora, isso é um absurdo e só crê nisso quem não entende da realidade da região ou quem se beneficia com ela e pretende ocultar o conhecimento do concreto.

Uma “reforma agrária natural” é uma lenda que diz que na nossa região predomina a pequena propriedade baseada no trabalho familiar. Segundo a CAR, baseada em dados do IBGE, em 1995, as propriedades com mais de 10 hectares e com menos de 1.000 ocupavam 61 % das terras. Região destaque na produção de feijão, milho e mamona, era o maior produtor de grãos do Nordeste nos anos 1970, hoje exporta beterraba, cebola, banana, mamona, manga, pinha e possui destaque com uma pecuária de caprinos, ovinos, suínos e bovinos. Que orgulho: a pequena propriedade produzindo tanto.

Porém, analisando a economia agrícola dos anos 1910 dos Estados Unidos, o economista e líder russo Vladimir Lênin criticava a expressão “fundada no trabalho familiar”. A expressão “não possui qualquer sentido político-econômico, e induz indiretamente ao erro”. Afinal, o “trabalho familiar” existe em todos os tipos de economias, desde a moderna indústria de pequeno porte, passando pelo escravismo, feudalismo e comunitarismo primitivo. A expressão, porém, “contribui para confundir as mais diversas formas sociais da economia, beneficiando apenas a burguesia” por iludir “o público, levando-o a acreditar na não-existência de trabalho assalariado”.

Lênin também destaca que “a superfície está longe de indicar sempre e de uma forma direta a grandeza efetiva da exploração e seu caráter capitalista”. O tamanho da propriedade e a indicação de que existe uma região com “muito trabalho familiar” simplesmente por existir um grande número de pequenas propriedades é algo bastante relativo. O historiador baiano Erivaldo Neves destaca que no sertão do período colonial e imperial, propriedades com até 500 hectares podem ser consideradas pequenas, a depender da região e bastavam para assegurar a subsistência de uma família. Porém, com a conversão da agricultura camponesa em agricultura de mercado, a terra passa a representar apenas uma parte das condições de produção. Hoje, a região de Irecê possui uma poderosa pequena-burguesia composta por empresários rurais que investem grandes quantidades de capital – trabalho assalariado, máquinas, irrigação, adubos, pesticidas, assistência técnica, transporte – em unidades agrárias que não precisam necessariamente ser extensas. Muitos dos micro-proprietários necessitam vender sua força de trabalho como diaristas na própria região ou nos cafezais de Minas. Muitas vezes, para uma família camponesa conseguir sua subsistência do camponês é preciso somar o trabalho na roça, o serviço de alguns membros no serviço público local e de outros como assalariados em cidades distantes, uma aposentadoria e uma bolsa-família.

Dizer que existe uma “reforma agrária natural” – quando na verdade existe uma fragmentação fundiária e um grande número de empresas rurais intensivas – servem apenas para justificar a falta de uma política agrícola regional que beneficie os agricultores pobres, para não falar nos diaristas, nos meeiros e nos arrendatários, uma grande quantidade de trabalhadores rurais sem-terra. Pra quê microcrédito? Comercialização de produção eliminando atravessadores? Cooperativas de produção? Agroindústria? “Conversa de comunista”, diz o prefeito, o governado e a presidenta, “já foi feita a “reforma agrária de forma natural”.

Irecê sempre foi um lugar estratégico. Desde o século XVIII, a região possuía uma estrada que transportava gado do São Francisco, do Oeste, do Piauí e até mesmo de Goiás para Feira de Santana e Salvador. Durante a segunda metade do século XIX, abasteceu com farinha de mandioca, rapadura e outros produtos o lucrativo negócio de diamantes da Chapada Velha e, posteriormente, da Chapada Diamantina. No início do século XX, passou a exportar borracha (1904-1914), algodão e banha de porco (1920-1940), mamona e feijão (1948-1980), milho. Nela tentou-se instalar um foco de guerrilhas da esquerda armada no início dos anos 1970 pela Vanguarda Popular Revolucionária do capitão Carlos Lamarca. A partir daí, passou a receber grandes investimentos oriundos dos Estados Unidos – que serviam para infra-estrutura em estradas, energia elétrica, e, é claro, comprar tratores das multinacionais que destruíram a caatinga da região. Uma política de crédito agrícola para acalmar as populações potencialmente rebeldes e desassistidas pelo poder público criavam um setor agro-comercial poderoso na região que se associa a burocratas corruptos e mantém uma elite política regional com padrão de vida de país desenvolvido, enquanto a maioria da população vive na pobreza.

Alternativa? Somente a organização popular dos camponeses da região, junto aos trabalhadores urbanos, poderá realmente melhorar a vida do povo trabalhador. “De cima, só precisa esperar cacete”, conforme já diz Chico do Caldeirão. Serve para nós aquilo que Eduardo Galeano, escritor uruguaio disse sobre a América Latina: “Somos mendigos sentados sobre montanhas de ouro”. Até quando?