24 de mar de 2011

A biblioteca


Não há muito tempo, neste mesmo jornal apareceu um texto versando sobre um assunto que eu sempre soube que não seria lido com a mesma atenção que outros mais amplamente debatidos no cotidiano da maioria das pessoas. Seria muita ingenuidade pensar que tão logo um mísero texto pudesse reavivar um valor há tanto tempo obscurecido, uma prática há tanto tempo abandonada, um ambiente há muito esquecido. À biblioteca falta muito ainda para ser tema de discussão acirrada no nosso município, por mais que aqui haja professores, alunos, autodidatas, ou simplesmente pessoas que encontram no livro um expediente de divertimento e de prazer. Parafraseando o que já disse Lacan sobre as mulheres: A biblioteca não existe!. Não é visitada, não é discutida, não é respeitada. Não querem saber dela o poder público, os estudantes a ignoram, os munícipes de um modo geral a desprezam. Como não? Não é por acaso que as coisas só têm o valor que nós damos a elas, não o damos e as coisas não valem nada.

Eu acho interessante falar sobre o assunto, isso é óbvio, pois senão não estariam lendo uma reminiscência de outro texto sobre o mesmo tema. O mais instigante é que a biblioteca que com ela agrega outros valores para a sua discussão como cultura, leitura, intelectualidade e saber, é aquele tipo de assunto que ninguém com algum juízo, pode “fazer pouco” numa conversa, ninguém em sã consciência chamaria de estupor, de bestagem a idéia de alguém sobre o assunto em público, no entanto é aquele tipo de assunto que as pessoas torcem na verdade para que ninguém toque, que ninguém se refira, que fique ali quieto, escondido. Quem ousa falar, mesmo que sob olhares de ódio encarnado, não ouve senão palavras de referência e grandiloquência sobre o quão importante, aliás, mais que importante, essencial para a vida humana, de homens racionais e inteligentes, de cidadãos conscientes, portanto. “Essencial”! “É preciso fazer algo.” “Uibaí, terra de gente inteligente, não pode viver uma situação assim” são expressões que provavelmente se ouve com facilidade. Balela.

Soube eu que a repercussão do outro texto gerou da boca de pessoas ligadas diretamente ao órgão do poder público responsável pela sua manutenção senão frases como essas algumas equivalentes em sentido, mas e aí? Será que muitas das reivindicações e questionamentos feitos no outro texto ainda são válidos hoje? Seriam, pois, mais válidos ainda? Teria inacreditavelmente piorado a situação deplorável do trato com os livros, da importância da leitura (tanto e tanto bradada da boca pra fora nos corredores das escolas), da situação desse ambiente que além de fundamental é simbólico na história de seres pensantes? Claro que sim. Difícil de admitir, mas, piorou, piorou por que não adianta o que se diga ou prometa, tudo permanece como antes, e, aqui vou eu reavivar a velha ladainha do outro texto: Uibaí tem uma biblioteca municipal de dar vergonha a qualquer gestor, cidadão ou estudante. As bibliotecas escolares não recebem nem a infinitésima parte da importância devida para a sua relevância na formação dos alunos. Quem se importa com os acervos tem desgosto de ver de perto os empréstimos feitos sem nenhum critério, o cuidado (a falta dele) com armazenamento e organização que faz parte da prática comum das escolas. E reforço: em Uibaí, as pessoas selecionadas para trabalhar nas bibliotecas passam por um que se não irreal é um critério muito negligente. Descrevamos isso por partes: O ideal seria o que todos sabemos ser muito difícil, ou seja, alguém formado em biblioteconomia, que tem o conhecimento necessário da prática de cuidado, organização, catalogação dos livros e outros tipos de impressos. Não, não é alguém assim, pois além da formação ser pouco comum na nossa região seria praticamente um exagero pedir isso para cada biblioteca escolar. Então vamos adiante, que fosse alguém que tem um interesse claro pelo assunto, aquele que mesmo sem a formação adequada conhece e visivelmente faria um bom trabalho por ter real consciência da importância dele, uma pessoa assim precisaria no máximo de uma formação técnica que poderia ser provida pela prefeitura para conhecer os parâmetros técnicos básicos de organização, cuidado e manejo de software específico para a área. Mas, hum... também não é alguém assim que trabalha nesses ambientes e é aí que chegamos ao critério. Bingo!! O critério é que não há critério. Sem querer desmerecer as capacidade de quem hoje ocupa esses cargos, mas minha crítica se dirige para quem escolhe, quem tem a possibilidade de contratar que é o PODER PÚBLICO. Se contratam um coveiro prum cargo de médico de quem é a culpa? dele que quer ter um emprego, sustentar a família ou da administração que deveria zelar para que as pessoas tivessem bons médicos e boa saúde?, mas isso é real, dá pra acreditar? Pois acredite meu caro leitor, e sabe onde isso acontece? Naquele município do pé da serra tão apregoado por aí como terra de “gente inteligente”, de gente que passa em concursos, terra de gente que engrossa as listas de aprovados nos vestibulares nas melhores posições por todo o país. Acredite, por mais absurdo que seja, é aqui.

Se querem saber realmente, eu digo sem pesar que o que eu gostaria mesmo de presenciar é utópico, para expressar isso faço minhas a palavras de eco, pois o que eu queria era que

Se a biblioteca é, como pretende Borges, um modelo do Universo, tentemos transformá-la num universo à medida do homem e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem num maple(banco de madeira) e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu flirt (tempo livre de lazer) na biblioteca, enquanto retiram ou voltam a pôr nas estantes alguns livros de interesse científico, isto é, uma biblioteca onde apeteça ir, e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina de tempos livres. (ECO, 1987)

Mas será que vendo toda a dificuldade de tornar esse sonho real, seria exagero querer que não seja ela a marca mais cálida do abandono e do descaso numa cidade tão cheia de pompa, por ser referência em conhecimento e inteligência?

Pensemos nisso.

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