16 de mar de 2010

Poeta Bié (1885-1946): primeiro poeta uibaiense


ABC dos revoltoso

Agnelo Pereira Machado[1]

Esse foi quem mais sofreu

Alem de todos os incômudo

Que Joaquim[2], seu vizin perdeu

Foi um dia de aflição

Pra tudo quanto era seu


Pedro Joaquim Machado[3]

Disse que num saía

Quando foi na quinta-fêra

Na manhecida do dia

Passeava in sua calçada

Pra ninguém ele ria

Só tava maginano

Pronde é qu’ele curria


Irineu Pereira Machado[4]

Tinha vontade de brigá

Quando revoltoso chegô

Ele quis se acovardá

Deu um treme nas perna

Que num pôde caminha


Irineu Gualberto[5]

Tinha vontade de sê valente

Andava c’um rifle na mão

Brigano com muita gente

Atiro num revoltoso

E baleô foi um tenente


O finado Isaulino[6]

Por sê home destemido

Atiro n’um revoltoso

E foi bem no pé du’ôvido

Por sê um home de fora

Aqui é pôco conhecido


O senhor Eliseu

Sobrenome Gomes Ferreira

Andava c’um rifle na mão

Procurano uma trincheira

Andava sapateano

Feito um bode de bicheira


Antoin Carnudo correu

Nas costa levava um fardo

Era toicin de u’a leitoa

Cinco aroba foi pesado


O véi Virgino curria

Num isquicia da bengala

Chegano incima da serra

Encontro c’um Januara[7]

A pisada deles dois

As pedra do morro abala


Lastimando eu vi muito

Da sorte que Deus lê deu

Isqueceno da muié

João Fulugêncio [8]correu

Dizeno: “num espero por revoltoso

Pois esse num é irmão meu”[9]




[1] Agnelo Pereira Machado, irmão de Irineu, foi uma espécie de organizador da retirada dos moradores.

[2] Joaquim Pereira Bastos, o Joaquim Magro, era vizinho de Agnelo. Fabricava telhas e ladrilhos. Relatos mostram que durante a retirada perdeu-se dos demais.

[3] Pedro Joaquim Machado, pai de Olga, era comerciante de tecidos, sua loja ficava onde hoje é a casa de dona Olga. Foi incendiada na passagem dos Revoltosos. Segundo João de Guidu, “se ele tivesse pedido ajuda para levar os tecidos até um lugar seguro não teria perdido tudo”.

[4] Irineu Pereira Machado era agricultor e poeta. Também criou um ABC dos Revoltosos

[5] Irineu Gualberto, filho de João Gualberto, morou no Caldeirão. Era da família de Cadete. Morou muito tempo nos Patos, em Ibititá.

[6] Pouco se sabe sobre este que, ao lado de Irineu e Zé Domingos, combateu os revoltosos durante a ocupação.

[7] Januária era esposa de “Anjo (Ângelo) Pé de Facão”.

[8] João Fulugêncio Machado matava porcos para vendê-los.

[9] Essa última estrofe somente foi lembrada por João de Guidú. As demais ficaram registradas na memória de Isabel Carvalho Machado, filha de Bié, recolhidas numa entrevista em P. Dutra (31/05/03).

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